terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Manifesto duma Fenomenologia verdadeira




Manifesto duma Fenomenologia verdadeira

Ao Artur Mário e à Inês
à Leonor, ao César e ao Gonçalo,
à paixão de compreender.

Em memória de Robert Davezies
e de Michel Clévenot


« Dum médico que só sabe medicina,
podes estar certo de que nem medicina sabe»
(Letamendi, médico espanhol do século 19)

A lei geral enunciar-se-á assim :
um especialista que só sabe da sua especialidade,
nem essa sua especialidade sabe bem.


Um manifesto é um texto curto que proclama a eclosão dum movimento, no caso dum movimento de pensamento. A fenomenologia sendo uma das principais correntes filosóficas do século 20, este manifesto anuncia a sua viragem para uma filosofia com ciências, a saber, as dos domínios mais decisivos, que serão aqui tomadas na sua dimensão filosófica.
O texto de referência de que este é uma abreviação intitula-se

LE JEU DES CIÊNCIAS AVEC HEIDEGGER ET DERRIDA

Foi publicado por l’Harmattan, em Paris. Os leitores que queiram saber mais, encontrarão aí demonstrações claras, citações, motivações para pensar, ou mesmo para escrever.

Escândalos

Escândalos

1. Quais foram as principais descobertas científicas do século 20 ? Pode-se responder a esta pergunta sem ser por uma enumeração empírica dependente das escolhas de cada um, pode-se responder-lhe com um critério rigoroso, simultaneamente filosófico e científico ? Quantas ciências há ? Algumas centenas, recortadas por milhares de especialidades, com limites a passarem dentro das fronteiras das vizinhas ? Quem sabe responder, quem conhece suficientemente para poder dizer um número que tenha um mínimo de verosimilhança ? Tudo menos um ‘especialista’, que por definição não conhece – mas bem demais, talvez – senão o seu domíniozinho. Os filósofos ? Mas, divididos em duas grandes correntes bastantes separadas uma da outra - a filosofia analítica anglo-saxónica, dum lado, do outro a fenomenologia predominando sobre tendências pré ou pós-estruturalistas -, os filósofos também se encontram disseminados em múltiplas especialidades, segundo horizontes bastantes divergentes. Ninguém se pode gabar de ‘dominar’, por pouco que seja, o arquipélago indefinido destas especialidades. O que não é necessariamente um má coisa, já que isso anula o fantasma duma dominação do ‘mundo’ pelos ‘sábios’, já que eles não se controlam também entre si. Mas que os nossos saberes se achem assim espalhados é indecente justamente enquanto saber.
2. As duas correntes que dominaram a história filosófica do século passado têm a sua fonte em Frege e Husserl, dois filósofos, lógicos e matemáticos, não muito longe um do outro, o segundo tendo inaugurado a fenomenologia com a mira na fundação das ciências e, talvez não tanto a sua unificação, pelo menos a sua articulação : o seu último grande título ainda andava em torno da « crise das ciências europeias ». Ora, segundo escândalo, a sua fenomenologia, que cem anos mais tarde está de razoável saúde – publicam-se livros e revistas, organizam-se congressos e colóquios, como todas as semanas se pode saber através dum semanário na Teia (Web) que tem numerosos assinantes -, parece ignorar quase totalmente a questão que era a obsessão do seu fundador. Procurar-se-á em vão artigos ou capítulos de livros sobre questões relevando de ciências, muito menos sobre a questão da sua articulação. Também do lado da filosofia das ciências, nos seus dicionários, as correntes da fenomenologia actual brilham pela sua ausência. É este duplo escândalo que move este manifesto, o torna intempestivo.
3. Voltemos à insólita questão inicial. O século 20 foi indiscutivelmente palco duma renovação extraordinária das ciências ocidentais : quais foram as suas principais descobertas, tendo em conta a diversidade dos domínios ? Não se procura um ‘top ten’, mas se se tratasse de eleger nos cinco domínios principais – matéria e energia, vida, sociedades, línguas e psiquismo humano – a respectiva descoberta maior, como haveria de proceder ? Escusado seria de perguntar aos especialistas, é óbvio, cada um puxaria para a sua especialidade e com boas razões. Também, pela mesma razão, seria escusdao procurar fazer sondagens junto do público culto ou das administrações universitárias. Cada domínio deveria ter o seu próprio critério ? Já não seria simples escolher entre a física da relatividade e a mecânica quântica, embora fosse mais fácil em relação à biologia molecular, excepto que a neurologia ficaria de parte. E em seguida, quanto às chamadas ciências sociais e humanas, como ter um guia ? Teriam elas tido descobertas que se possam colocar ao lado das que habitualmente são chamadas ‘ciências’ sem se acrescentar nenhum adjectivo ?
4. E se um dos critérios fosse o da articulação entre estes domínios, as maiores descobertas sendo as que a tornassem possível ? Por exemplo, a teoria do átomo e da molécula, por um lado, a biologia molecular do outro, estas duas teorias tendo tornado possível dar conta, a nível microscópio, dos dois grandes tipos de ‘matéria’ do universo, a inerte e a viva, e de os articular.
5. Um outro critério seria uma maneira de permitir ultrapassar o determinismo (que os cientistas tanto prezam) e o relativismo (que eles detestam). A primeira questão levar-nos-ia a perguntar aos cientistas porque é que eles têm necessidade, de forma essencial, dum laboratório. Que condições se criam nele que a chamada realidade não tem ? Condições de determinação ? Que não existem fora dos seus muros ? Então o determinismo não seria uma extrapolação indevida ? A segunda questão inquieta a ‘verdade’ do trabalho deles que, enquanto historicamente situado, não escapa à relatividade : será certo que aquilo que se procura, o que valha a alguns prémios Nobel invejados, está destinado a ser um erro daqui a algumas gerações ? Que as verdades das ciências, as que Newton descobriu, por exemplo, que triunfaram durante mais de dois séculos, seriam erros futuros ? Que não temos nenhuma maneira de tornar firmes algumas descobertas maiores, susceptíveis de durar enquanto a civilização actual durar ?
6. Ainda uma questão que não é costume pôr nestes domínios : como é que se aprende ? Como é que se forma um cientista ? Como é que se pode compreender, científica e filosoficamente, que alguém seja ‘formado’ a certas regras, teóricas e práticas, que ele terá de repetir escrupulosamente, e que, por outro lado, a sua meta seja descobrir algo de ‘novo’, em parte ao menos, em relação a essas regras teóricas que o formam ? Trata-se dum paradoxo interno ao motivo do paradigma proposto por Kuhn, não apenas entre ciência normal e crise, mas também entre repetição de rotina no laboratório e paixão de descobrir. Ele pede uma teoria da aprendizagem que vê-se mal sair duma qualquer especialidade científica, que parece pedir o concurso articulado de vários domínios.
7. O que nos possibilita interrogar agora do lado fenomenológico. O tipo de questões que acabámos de colocar não parece susceptível de ser respondido à maneira husserliana dum inquérito reflexivo sobre a consciência e os seus actos, partindo da intuição sensível da percepção até à intuição eidética das essências científicas. Se o motivo da redução parece continuar a convir ao arsenal científico – ele corresponde em parte à boa velha definição inventada pela escola socrática de filosofia -, teremos que seguir os dois dissidentes mais importantes da abordagem husserliana que largaram a « região consciência » do mestre, Heidegger e Derrida, e tentar encontrar neles o que nos possa ajudar a reelaborar uma fenomenologia adequada às descobertas científicas do século que se foi. Por um lado, eles introduziram a linguagem, o logos, no discurso fenomenológico (a qual linguagem, vinda de fora, trabalha portanto a ‘voz’ da consciência), dando assim aos ‘conceitos’ um peso histórico que a ideia europeia clássica ignorava. Ora, esta foi uma das invenções maiores, cartesiana, do século 17 de Galileu e Newton, preciosa na tarefa, não apenas de criticar o aristotelismo medieval, mas também de arrancar os fenómenos ao seu chamado contexto real para os trazer à experimentação laboratorial. Cortava-se assim o ‘sujeito’ – que teve a ideia – do ‘objecto’ que ela representava : do exterior das coisas (extensio) ao interior do pensamento (cogito). A linguagem, a escrita, os instrumentos do laboratório, tudo isso permanecia de fora, secundário, como ainda muitas vezes hoje se pensa. É o que a nova fenomenologia deve avaliar, como é que essa representação mental, criticada pelos filósofos desde algumas décadas, permanece o obstáculo ignorado no discurso e no pensamento dos cientistas. Ser-se-á assim levado a pôr em questão a própria noção de ‘mental’, o ‘mind’ anglo-saxão.
8. Por outro lado, Heidegger e Derrida alargaram as problemáticas do pensamento a toda a história do Ocidente, filosófica mas também científica (e literária), o que permitiu a Derrida contestar o papel preponderante do discurso filosófico em relação às ciências : desde o início, desde Platão e Aristóteles pelo menos, que ele sofreu o impacto (não logocêntrico, gramatológico) do jogo das ciências. O discurso filosófico é histórico, escrito em línguas diferentes, cuja tradução entre elas é também uma questão filosófica que pede recurso aos filólogos linguísticos e à história, sem que ele possa controlar esse recurso em última instância, como ele quereria. Há que generalizar : é a noção husserliana da fenomenologia como ciência filosófica rigorosa que deveria fundar as outras ciências, segundo uma posição teórica herdada pelo menos de Kant, que tem que ser recusada. Não mais filosofia das ciências, mas filosofia com as ciências, sem que nenhuma esteja em posição de última instância.
9. Tratar-se-á com efeito de dar um passo além do de Kuhn, de ir dentro dos paradigmas disciplinares de cada ciência para discernir nele a intromissão do discurso filosófico clássico. Se se tomar o motivo de epistema de Les Mots et les Choses de Foucault, pode-se distingui-lo do nível mais estritamente paradigmático onde se articula teoria e experimentação ; este nível epistémico seria o nível que reúne teoricamente os fragmentos da experimentação laboratorial e pensa o retorno aos fenómenos da chamada realidade, que se tornam assim fenómenos ‘conhecidos’ cientificamente. Se for verdade que toda a experimentação é fragmentária, é justamente a reconstituição do seu conjunto que constitui o gesto fenomenológico em cada ciência. É esse gesto, em grande parte ‘filosófico’, no sentido em que Althusser, numa perspectiva filosófica bem diferente, falava da « filosofia espontânea dos sábios », é nesse gesto que age subrepticiamente a representação mental, separando sujeito e objecto segundo o velho dualismo da alma e do corpo, correlativo da oposição interior / exterior ou dentro / fora, é esse gesto que se tratará de questionar criticamente, recorrendo à literatura de divulgação científica de que se dispõe hoje em dia em língua francesa.
10. Trabalhou-se assim cada uma das seis disciplinas, as cinco científicas e a fenomenológica, para tentar fazer delas uma composição articulada, susceptível, além disso, de esclarecer a nossa história greco-latino-europeia. O que foi todavia fonte de surpresas constantes, foi como cada disciplina mudava pelo efeito de composição com as outras e, por outro lado, como essas mudanças a deixavam ser duma maneira nova que sublinhava as descobertas maiores de que se partira ; os próprios Heidegger e Derrida deixavam ver dimensões inéditas dos seus pensamentos. Sem pretender reduzir o pensamento destes dois autores ao que deles retive, chamo fenomenologia esta filosofia com ciências, que é susceptível, quer-me parecer - além de regressar às próprias coisas -, de dar conta, de pensar e de conhecer muitas das questões que nos interessam hoje, algumas até que nos fazem mal. Mas tem que se acrescentar que é mais difícil do que ficar na sua especialidade.
11. A astúcia consiste em restituir à filosofia a amplidão que ela tinha antes do corte kantiano – que deu autonomia às ciências, libertando-as da metafísica (o que foi um grande bem !) e especializou a filosofia nas tarefas gnosiológicas -, a astúcia de fechar dois séculos mais tarde o parêntesis kantiano e de fazer a nova fenomenologia aproveitar da dimensão filosófica das diversas ciências e das suas descobertas. Do que temos uma grande necessidade, antes de mais pensando nos graves problemas pedagógicos do nosso ensino, devidos em boa parte ao caos disciplinar, à dificuldade, para os jovens alunos, de ligar as coisas diversas que aprendem em vasos compartimentados. É um escândalo.

Alargar a redução fenomenológica

Alargar a redução fenomenológica

12. Uma das possibilidades da linguagem dos humanos é a de permitir ‘suspender’ o contexto situacional do falante e do ouvinte (do escritor e do leitor) em vista de ‘criar’ um acontecimento de palavra trazendo consigo o seu contexto : dois bons exemplos são, quer o contar uma narrativa do passado ou uma ficção, quer o que se chama pensar, incluindo sonhar, desejar, imaginar outras possibilidades do que as do contexto situacional, do ‘aqui e agora’. O ‘discursivo’ (que Benveniste distinguiu do ‘narrativo’) permite dois modos dos verbos : o indicativo presente que, com outros índices de locução (‘eu’, ‘tu’, ‘aqui’, ‘agora’, e outros), reenvia ao seu contexto, ‘indica’ o que está ‘presente’, e o conjuntivo, que reenvia a esta capacidade de pensar a outra coisa, guardando todavia o suporte do ‘eu’ da enunciação (e a relação ao ‘tu’). Da mesma maneira, a narrativa evocada pode guardar este suporte (auto-narrativa, a respeito do locutor), que no entanto estruturalmente ele exclui. Que nome dar a esta possibilidade das nossas palavras de ‘suspenderem’ o nosso contexto situacional e de nos arrebatar para algures, absorvidos por exemplo na leitura dum romance apaixonante ? Bifurcação ? Jogando com dois dos sentidos da palavra ‘sentido’, poder-se-ia com efeito falar de bifurcação do sentido : o que nos orienta no espaço, direita, esquerda, à frente, atrás, em cima, em baixo, o que, sentido do discurso, nos dá uma outra possibilidade ao nosso ser-o-aí, a de se ser algures, num outro aí. Bifurcação : ao mesmo tempo aqui-presente e algures.
13. Esta bifurcação far-se-ia entre o nosso contexto situacional, o nosso ‘aqui e agora’, e o contexto contado pela palavra ou pelo escrito. Este tem a potência de nos raptar daquele, de nos absorver, de nos bifurcar[1]. Pode-se presumir que seja necessário normalmente um ponto de partida no contexto situacional para que haja esse ‘ir-se’ da bifurcação, algo, acontecimento mínimo, que faça interrupção, que faça ‘associação’ entre um elemento do contexto e o que está em jogo na palavra, dita ou silenciosa : um encontro com alguém, tal coisa que acene à memória, ou muito simplesmente uma associação de ideias. Esta é tão frequente que temos que admitir que o nosso estado normal seja o de estar sempre já em bifurcação de sentido, digamos assim, entre a situação do contexto e a do discurso[2], a chamada consciência. Prevenção dum ‘acidente’, a expressão ‘dá atenção !’ lembra com insistência que há que estar atento ao contexto quando se está algures, nas nuvens.
14. O que chamamos filosofia no Ocidente arrancou mais fortemente a partir da literatura chamada pré-socrática por uma bifurcação excepcional, ligada à invenção da definição pela escola socrática. No Ménon (71c), por exemplo, a questão da definição – « o que é que tu dizes que é a virtude ? » - é colocada assim : « por muito diversas e numerosas que sejam, [as virtudes] têm todas uma certa forma (que é) a mesma (hen ge ti eidos tauton), que faz com que elas sejam virtudes. É nela que convém fixar os olhos para responder à questão e mostrar em que é que consiste a virtude ». Admitindo que haja uma ‘visão’ do comportamento virtuoso, a sua definição consiste em encontrar esse eidos tauton, esta forma que é a mesma em todos esses comportamentos virtuosos ; para isso, haverá que as despojar do que Aristóteles chamará os seus acidentes, do que há de particular em cada um desses comportamentos virtuosos e retirar deles a « forma (que é) a mesma ». O que implica que a definição seja, dela própria, (assente sobre) bifurcação : por um lado, está-se aqui, numa discussão filosófica a dois, pelo menos, portanto no registo da palavra, por outro lado « convém fixar os olhos » sobre esses comportamentos, aonde eles estão, nas suas situações ou contextos. A definição retira – desses contextos « sob os olhos » - um eidos, que é o mesmo em todos os contextos considerados, mas que só o pode ser porque desligado das suas particularidades : quer dizer que o eidos não é o mesmo senão na palavra filosófica[3]. Cada um desses comportamentos pode ser contado numa narrativa ou dito num discurso, ambos respeitando ao contexto particular dele, comportamento. Pelo contrário, o texto gnosiológico, esse novo texto das definições – dos eidê (formas ideais) em Platão, das ousiai em Aristóteles -, rompe com esses discursos do particular, que ele qualifica de doxa (opinião, seja verdadeira ou não). Este corte, relevando da violência da definição (a violência pedagógica a que chamamos abstracção, arranque) foi instituída : a Academia, o Liceu, a escola em retracção das opiniões da cidade. Quer dizer que ela implica a alteração daquele que define : ele ‘fixa os olhos’ sobre as coisas da cidade e da natureza de maneira muito diferente dos outros que lá vivem (ver a descrição do pensamento do filósofo enquanto arrancado ao contexto em Teeteto 174-175). Foi este arranque – esta abs-tracção violenta[4] sobre a bifurcação – que foi retomado por Platão como separação entre as Formas ideais celestes, saídas das definições, e as coisas definidas no seu contexto terrestre. Umas, foram contempladas pela alma quando ela estava separada do corpo, antes do nascimento, as outras, conhecidas através do corpo e dos seus órgãos, são geradas e corrompem-se como ele ; esta alteração do filósofo foi teorizada na imortalidade da sua alma virtuosa (Fédon). Enquanto que Aristóteles, pelo contrário, atenuou o mais que pôde a separação ( a sua ousia é tanto eidos quanto coisa, essência como substância). Mas, grande utilizador de definições, ele reforçou o corte institucional entre o Liceu e a cidade, entre o seu texto gnosiológico[5] e as narrativas e discursos da doxa ; abandonando a imortalidade da alma, não deixou de guardar a alteração do seu olhar de filósofo, arrancado cada vez mais à doxa quotidiana, colocado fora de jogo.
15. Pode-se pensar que a redução de Husserl consistiu, no essencial na retomada do gesto da definição da escola socrática[6], numa espécie de refundação de filosofia em relação à tradição escolar da sua época enquanto doxa[7] académica, digamos. Com efeito, esse ensaio teve lugar após a muito longa história da instituição que é a escola, a história das universidades medievais e europeias, sobretudo após os séculos 17 a 19 e a proliferação inaudita de toda a espécie de ciências. A sua insistência sobre a intencionalidade tentava reencontrar a bifurcação inicial, se dizer se pode, indo da percepção à intuição de essência : ‘esquecendo’ o discurso, privilegiando na percepção o que chamava ante-predicativo, tentou regressar à ‘coisa’ para suspender ou reduzir o seu empirismo contextual, o que a liga ao mundo das outras coisas usuais, para tirar dela, abstrair, o eidos ou essência. Reduzir a coisa aparecendo para reter apenas o seu aparecer fenomenal, estrutural. Saudando esse retorno às coisas, foi aquele ‘esquecimento’ que Heidegger criticava em Ser e Tempo, colocando o humano como Dasein, ser-o-aí, exterioridade no mundo[8], foi esse esquecimento que ele visava no seu gesto de reclamar o ser-no-mundo antes do discurso filosófico (o da definição) : o que sublinharia como a redução repetia a definição e falhava as próprias coisas, vistas imediatamente como ‘objectos’, fora do contexto. O começo de Husserl situava-se já depois do corte (gnosiológico, em prol do conhecimento) com o mundo quotidiano em que todos nos movemos. É certo que era esse mundo que era reduzido, mas Heidegger dava a ver o que Husserl parece não ter compreendido : que essa redução, procurando encontrar o eidos, a essência das coisas a que ele convidava a regressar, tinha incidências também sobre ele, que a consciência que reduzia era já a dum ‘filósofo’, de alguém já arrancado ao quotidiano, que já estava na escola. Retornando ao mundo de antes dos objectos, Heidegger não regressou no entanto aos discursos particulares da literatura, de que se aproximou bastante, no entanto ; ele guardou cientemente a maneira filosófica da escola, mas deslocando o empírico do mundo a reduzir para a história ocidental do ser, tentando reduzir nela o substancialismo do aristotelismo medieval e europeu : há que o destruir, dizia.
16. Nele o ser tornar-se-á a diferença ontológica com as coisas, regressa ao mesmo que Parménides tinha formulado como o dizer-(que)-pensa-o-ser. O ser é o ser das coisas, do mundo, do universo, mas não é dado nem aos olhos nem às mãos : ele é dito e pensado pelo pensador, é o mesmo que o seu dito, o seu pensado[9]. A história do ser é assim a história dos motivos que, dos Gregos aos Europeus, o pensaram[10]. Longamente ele busca pensar este ser que dá as coisas, os entes, até vir, em 1962, a formular o motivo do Ereignis (acontecimento, em alemão) que lhes dá - às coisas que ‘acontecem’ - quer o ser quer o tempo, mas apagando-se, retirando a sua doação. Aqui é de Heraclito que dependia : « A natureza (o ser) gosta de se esconder ». Esta doação faz ser a coisa, o seu retirar-se deixa-a ser ela mesma, no seu ser e tempo próprios.
17. Derrida continuará na sua peugada. Encontra-se diante da tarefa de pensar o ser-no-mundo heideggeriano e a pré-compreensão (os preconceitos) que Ser e Tempo lhe tinha outorgado : donde é que ela vem (vêem eles) ao Dasein ? Para o saber, retomará a redução de Husserl, mas deslocando-a também. Já não na direcção do ser, mas na da palavra, que ele contestará que seja posterior à chamada percepção[11]. A redução, tal como ele a reelabora, atravessando uma célebre diferença saussuriana entre os sons da voz e os significantes (só estes pertencem à língua), permitir-lhe-á dar conta da aprendizagem da fala[12], do aparecer duma voz inédita de criança : esta só é possível por uma ‘suspensão’ dos sons empíricos das vozes dos outros que retém apenas as suas diferenças significantes[13]. Chamemos a esta nova redução gramatológica[14]. Mas há que a complexificar, de maneira a ter em conta a dupla articulação da linguagem (§ 27), o que ele fará, implicitamente, num outro texto da mesma época. Os significantes escutados, as palavras e as regras das frases, são aprendidos e ditos pela nova voz como língua cultural da comunidade nas suas relações aos outros, por uma lado, mas também em relação aos usos de habitação que a criança aprende juntamente com a linguagem. Ora, é esta língua – que fala na sua voz e pela qual a criança é auto-afectada, con-sciente de si – que, pré-compreensão heideggeriana, a eleva ao nível, digamos, do paradigma desses usos de habitação (receitas, regras, leis, jogos, sonhares, etc.) : pode-se dizer que ele reencontra assim a redução fenomenológica de Husserl[15], mas à maneira duma nova volta ou dobra da redução gramatológica. Esta dupla redução - em double-bind, para usar a sua terminologia posterior – será repetida a cada nova aprendizagem quer da voz quer do fenómeno. Se comecei por propor uma ‘bifurcação do sentido, vê-se, agora que voltamos a ele, que ela se dá como sempre já duplamente articulada, sem que se possa separar um dos ‘sentidos’ do outro, aquilo que se vê ou mexe do que se pensa ou compreende dele (com as mesmas palavras que os outros).
18. Mas esta palavra ‘redução’, permitindo compreender tanto quanto é possível esta aprendizagem tão enigmática a partir dos outros, pode tornar-se fonte de confusão, pode ignorar o aspecto ‘construtivo’ do saber-fazer do novo humano habitante da sua tribo. A redução da empiricidade dos outros, da voz deles e do saber-fazer dos mestres que se apagam, é com efeito correlativa da construção ou crescimento do saber, do preenchimento ‘substancial’, ‘empírico’, da voz e saber-fazer do que aprende os usos da sua gente. O que cada um de nós sabe é o rasto (trace) daqueles com quem, de quem aprendemos.


[1] É aonde residiria, parece-me, a ‘verdade’ de ce o que se chama idealismo, cujo erro consise em dividir ou separar a bifurcação entre ‘corpo’ e ‘alma’, extensio et cogito, finalmente objecto et sujeito. Em Husserl : região natureza e região consciência.
[2] Limito-me aqui ao discurso, mas este ‘lá’ pode ser também música, jogo de imagens, cálculo matemático.
[3] Pode-se dizer que o nome das coisas é o seu início, já que o facto de numeorosos cães de raças tão diferentes serem nomeados, nos discursos, pelo mesmo nome ‘cão’ implica a suspensão dasparticularidades de cada um, para não reter senão um eidos.
[4] Ela não será completa enquanto se guardarem na escola as palavras da cidade. Sê-o-á com a tradução latina em palavras estranhas ao quotidiano.
[5] Sem os tempos e os modos dos verbos, apenas cópulas. A base de definições de essências intemporais e da argumentação coonsequente, ele já não dialoga e torna-se cada vez mais incompreensível para os não-iniciados.
[6] Para ser mais preciso, a redução seria uma classe de operações de pensamento de que a denominação, a definição, a epoché e as diversas reduções científicas de que será questão mais adiante (§ 89) seriam espécies.
[7] A sua tese da posição natural do mundo, a suspender pela épochê, corresponderia à doxa dos Gregos. O pensamento ‘naturalizou-se’ na escola, é preciso fazer uma nova ‘separação’ dentro da velha separação, um novo paradigma, uma nova maneira de ‘fazer’ a separação-definição : « com uma atitude completamente diferente », dizia ele no início das Ideen.
[8] Criticando Husserl, o velho Heidegger disse que a consciência é fechada, não se sai dela ; acrescentou paradoxalmente que o seu Dasein estava ‘próximo’ das mónadas leibnizianas, porque ele também não tinha janelas.
[9] Nos Europeus, o corte cartesiano separará o pensamento (o sujeito) e o ser (o objecto), fazendo do dizer um instrumento subordinado.
[10] Esta historicidade dos motivos filosóficos, que se encontra já em Nietzsche e será retomada pela gramatologia de Derrida, é um dos pontos decisivos da viragem heidegeriana. Há que a ter em conta para valaiar bemo pardigma kuhniano, qualquer que seja a explicitação do próprio Kuhn (por exemplo, é a condição duma sua tese que chocou muita gente, sobre o olhar e a sua dependência do que o orienta, memória ou pardigma, do que se aprendeu).
[11] Chegará a dizer que o que se chama a percepção não existe.
[12] Quer dizer que a consciência não pode ‘sozinha’ fazer e garantir a redução. Que Derrida encontre diferenças-repetições e o ses espaçamento-temproalização como ‘resultado’ da redução implica que, em vez dum Wesenverhalte (estado de essências) husserliano, este ‘resultado’ seja sem mais estrutural e temporal.
[13] Estas diferenças. Vindas dos outros inscreverem-se nas crianças, são espacializadas e temporalizadas : é o que Derrida diz différance. O verbo ‘diferir’ diz as diferenças espaciais e o adiamento temporal. O a acrescentado a ‘différence’ introduz esse sentido temporal do verbo que o substantivo ignora.
[14] De ‘gramma’, escrita em grego, inscrição. São estas diferenças significantes que se inscrevem nos ouvidos-cérebro-garganta da criança.
[15] Já que a aprendizagem quer das palavras quer dos gestos dos usos quer das respectivas relações mútuas se faz por redução fenomneológica, as palavras supondo todavia também a redução gramatológica. É esta aprendizagem que traz o filho da mulher e do homem ao ‘mundo’, faz dele um ser-no-mundo da sua tribo.

O jogo : regras e aleatório

O jogo : regras e aleatório

19. « O jogo das ciências », título do ensaio que é aqui manifestado, junta ‘jogo’ e ‘ciências’ duma maneira que pode surpreender. A questão que um tal título põe é a do estatuto das regras que os cientistas descobrem nos fenómenos que estudam. Regras, leis, teses, teorias, todo este pesado calão científico se opõe à frivolidade infantil que a palavra ‘jogo’ evoca imediatamente. O que é um jogo ? De futebol, por exemplo, que o velho Heidegger apreciava. Por um lado, cada desafio é um acontecimento, já que o aleatório lhe é essencial, mas tem regras pré-estabelecidas, estabelecidas de maneira a tornar possíveis desafios apaixonantes entre duas equipas do mesmo nível, permitindo campeonatos, jogadores profissionais, treinadores (com um outro tipo de regras, as das estratégias), jornais e por aí fora. Toda esta gente anda em volta dos desafios, dass suas regras concebidas em vista do aleatório das competições. Por exemplo, que um dos jogadores tenha direito a jogar com as mãos na área da baliza impede que haja golos a mais (como há no basquet), assim como a regra do fora de jogo, enquanto que os penalties, pelo contrário, impedem que haja poucos de mais, etc. Estas regras não se encontram tais quais nos outros desportos de bola, são imanentes ao próprio jogo. É claro que o futebol supõe leis físico-químicas, biológicas, sociológicas, psicológicas, mas tal como os outros desportos, o que significa que nenhum deles é determinado por essas leis : o jogo é imotivado em relação a elas. Nem o físico nem o biólogo nem o antropólogo podem deduzir as regras do jogo a partir das leis das suas ciências[1], ele não tem outra razão a não ser a que lhe é imanente. Que o conjunto seja imotivado, basta comparar com outros jogos, com bola (basquet, ténis) ou não (atletismo, corridas de automóveis, de cartas (bridge) ou xadrez, que têm todos as mesmas características : espaços-tempos concebidos segundo regras tornando possíveis desafios essencialmente aleatórios, podendo portanto apaixonar quer os jogadores quer os espectadores eventuais. Todos diferentes entre eles, os desportos são organizados estavelmente na sua duração. A unidade indissociável das regras e do aleatório, do acaso e da necessidade, eis a essência do jogo, segundo Derrida. Ora, o que a palavra ‘futebol’ designa não é uma coisa, não é nada, não são os desafios nem os jogadores que ele ‘dá’ dissimulando essa doação : o futebol é um Ereignis, este releva do jogo.
20. O exemplo não é digno das ciências ? Então tomemos um outro que releva delas muito claramente, o dum automóvel. Questão simplista : um automóvel é determinista, como acabamos de ver que os jogos não são ? Por um lado, dir-se-ia que sim, já que ele é regrado em grande minúcia, teórica e experimental, segundo as leis de várias regiões da física (mecânica, aerodinâmica, electricidade, termodinâmica, etc.) e da química (carburante, óleos, cauchu, etc.). Mas por outro lado, a finalidade dessas regras diz respeito à produção dum trabalho que é essencialmente aleatório. Com efeito, um carro só serve na condição de ser comandado pelas exigências do tráfego, da circulação nas estradas : andar mais depressa ou mais devagar, travar ou recuar, virar à direita ou à esquerda, etc., em cada instante podendo apresentar-se uma situação pedindo a alteração da condução seguida até esse momento. Reencontramos, como no jogo, as regras e o aleatório, este sendo tanto o do destino do condutor como o dos outros carros que circulam perto.
21. Ora, esta lei do tráfego, essencialmente aleatória e dizendo respeito a uma grande quantidade de carros, comanda a construção do carro em todos os seus detalhes mecânicos, até aos que só dizem respeito ao conforto. Excepto num ponto : a explosão da gasolina que dá o movimento, obedece por seu turno a uma lei da termodinâmica dos gases que é totalmente incompatível com a lei do tráfego : não seria possível andar-se a passear nas ruas provocando explosões de gasolina. Após a máquina a vapor de J. Watt, o automóvel é a invenção fabulosa da maneira de tornar indissociáveis duas leis inconciliáveis, a da termodinâmica com a do tráfego : é preciso que o motor seja retirado (motivo heideggeriano em oblíquo), fechado hermeticamente, blindado, fortemente repetitivo, já que ele não faz senão rodar um eixo, enquanto que o resto do carro, digamos o seu aparelho, é pensado em vista das manobras de circulação e adequação ao tráfego de que se falou. Este exemplo ilustra o motivo derridiano da différance entre duas forças antagonistas, do ‘double bind’ indissociável entre duas leis inconciliáveis. Eis um dos principais critérios de descrição fenomenológica dos domínios das diversas ciências.


[1] Se é isso o sonho do fisicalismo, mais vale dizer que é uma estupidez.

Os mamíferos e as línguas humanas

Os mamíferos e as línguas humanas

22. Tratemos agora dum outro critério que a máquina não pode ilustrar, porque tocante aos fenómenos de doação que dizem respeito aos seres vivos, que só encontramos em quatro domínios científicos, com exclusão da física e da química. Ele é de tal maneira importante que explica porque é que elas não têm aqui o lugar preponderante que tinham em filosofia das ciências. Em relação a elas, com efeito, será preciso ‘adaptar’ à fenomenalidade dos seus inertes e aos campos respectivos as descobertas dos outros cinco domínios da nova fenomenologia.
23. Procuremos articular as descobertas biológicas da genética e da neurologia. Seja uma espécie de mamíferos que, dados pela natureza, se reproduzem. O casal duma fêmea e dum macho tem que gerar duplos, machos e fêmeas, que por um lado sejam os mesmos (da mesma espécie) e que por outro lado não idênticos (são outros indivíduos). Para se reproduzirem, estes indivíduos têm que habitar um território ecológico propício à sua alimentação e à sua segurança. Para estes dois tipos de reprodução, da espécie e do indivíduo, a natureza joga da mesma maneira, ensinou-nos a biologia molecular : a mesmidade da espécie e do conjunto organizado dos comportamentos dos indivíduos é garantida pelo mesmo programa genético. Este todavia – contra o que parece que alguns genéticos pensam, se se der crédito às declarações que fazem aos jornais – não pode determinar os comportamentos de forma estrita, já que cada indivíduo em que agir em função do aleatório das presas a apanhar, das fugas para não ser presa de outros, etc. : encontramos o aleatório como no caso do tráfego automóvel. Mas aqui é mais complicado : a mesmidade tem que jogar essencialmente com a possibilidade de alteração devida ao outro que se come e ao ambiente em geral, mas sem perder a mesmidade da espécie ; para isso, é necessário que o programa genético possa, ao mesmo tempo, regular o jogo químico do metabolismo da sua célula[1] e guardar as suas moléculas de serem alteradas quimicamente : tem que ficar retirado (em linguagem heideggeriana) no núcleo da célula, o que é o resultado desse admirável mecanismo da duplicação dum segmento do ADN em ARN mensageiro, o qual opera a síntese química da proteína requerida e degrada-se em seguida (Monod e Jacob), enquanto que o ADN permanece guardado como o mesmo em vista da próxima vez. Por outro lado, ele tem que conter em si todas as regras necessárias às sínteses de proteínas de cada um dos cerca de 200 tipos celulares dum mamífero, segundo o aleatório também da comida que chega à célula e os teores do sangue, sobre cujo equilíbrio vigia o jogo hormonal.
24. Uma visita rápida pela anatomia do nosso mamífero mostraria facilmente como ela é orientada para assegurar o metabolismo de todas e de cada uma das suas células : a circulação do sangue traz-lhes oxigénio e nutrientes, enquanto que os aparelhos digestivo e respiratório se encarregam da alimentação do sangue ; os músculos e as patas, o cérebro e os respectivos órgãos de percepção, têm que agir no território em vista de encontrar o que comer, beber, respirar. Como o consegue ? Tem que ser aguilhoado pelo jogo hormonal que, atento ao equilíbrio homeostático do sangue entre dois limiares[2], tem que o assegurar, accionado por via genética. Se o sangue tem falta de nutrientes, o paleo cortex segrega hormonas da fome que movem o sistema da mobilidade que o neo cortex governa. Ora, ele não poderá caçar nem fugir a um eventual predador sem que algo do território seja inscrito duravelmente nas sinapses do seu cérebro, segundo os grafos do neurologista J.-P. Chan­geux. Estes grafos, por seu lado, são também regrados para que acções aleatórias sejam possíveis, comportamentos regrados a partir dos órgãos de percepção até aos músculos da mobilidade, depois de terem atravessado o duplo cérebro, o paleo cortex emocional herdado dos peixes e répteis e o neo cortex das aves e mamíferos, mais desenvolvido em nós, humanos. Tudo isto implica portanto nos mamíferos uma certa aprendizagem e a respectiva memória. O que tem como consequência que nada do que, num comportamento, implica algum conhecimento do território ecológico e das suas situações (de caça e outras) não pode ser estritamente determinado geneticamente. No caso dos humanos, as regras desses comportamentos são os usos sociais (que deverão ser objecto de estudo das ciências das sociedades), mais gerais ou mais especializados consoante, que são inscritos nos nossos cérebros de maneira a que sejamos mais ou menos hábeis na sua efectivação, de maneira que esses comportamentos se façam espontaneamente, a partir de dentro, como nossos, apesar de serem originados de fora, aprendidos. Seja um exemplo simplista desta não determinação genética : se tenho fome, trata-se dum efeito genético devido à fraca taxa de nutrientes no meu sangue, mas se devo comer uma sandes, fazer uns ovos mexidos ou ir a um restaurante, é uma decisão sobre comportamentos que não tem nada de genético.
25. Da mesma maneira, o leão com fome só se sacia se tem a sorte de encontrar uma presa e que esta não tenha, por sua vez, a sorte de lhe escapar. É por isso que, na evolução dos vertebrados, o olfacto (que joga quimicamente, à maneira das hormonas) teve que dar lugar estratégico à vista, audição e tacto e respectivas aprendizagens : quer dizer que o jogo químico de tipo hormonal, motor dos comportamentos (de fome, no nosso exemplo) também está cada vez mais retirado do território, à medida do desenvolvimento do neo cortex. Retirados assim do território, tanto os genes como as hormonas são cegos em relação a ele (como o cilindro do motor em relação ao tráfego), não podem pois determinar nenhum dos comportamentos, apesar do jogo genético sobre as hormonas que permanecem o ‘motor’.
26. Chega-se assim às duas leis indissociáveis e inconciliáveis das espécies animais. Uma dela é a autonomia do destino de cada indivíduo, regida a partir do retiro dos seus genes e do seu jogo hormona, que não busca senão a sua própria reprodução[3], a sua vida, o adiamento da sua morte, sendo para isso obrigado a comer outros vivos, vegetais ou animais ; a outra lei, equivalente à do tráfego, é a lei do conjunto de todos os outros animais que procuram o mesmo, já que nenhum sobrevive sem o sacrifício de outros vivos : á a lei da vida, a lei da selva. O que é coisa de grande espanto, é que esta lei – inconciliável com a de autoreprodução de cada um daqueles que fazem parte dela (são portanto indissociáveis) – seja eficaz, que a sua eficácia seja o segredo último da evolução, do que Darwin chamou selecção natural[4]. Com efeito, assim como a lei do tráfego comanda a engenharia do automóvel, também a anatomia de cada espécie é comandada pela lei da selva, anatomia muito precisamente adequada à melhor maneira de caçar e de não ser caçado : tantas milhões de espécies, que panóplia imensa de tão diferentes astúcias, leque inesgotável das artes de capturar e de se defender, venenos, garras, mandíbulas e dentes fortes, tromba e cornos, ferrões e teias de aranha, refúgio em tocas ou subindo às árvores, até às asas para voar. O jogo da alteração, tanto na sexualidade como na nutrição, é assim estrutural à reprodução do mesmo, é isso que não existe na máquina : o que eu como, é o outro ser vivo, animal ou vegeta, que se torna em mim mesmo ; sendo isto verdade desde a primeira célula, cada animal é ‘feito’, substancialmente, se se quiser, em cada uma das suas células e moléculas, de outros seres vivos de outras espécies. Espantosa lei da alimentacionalidade.
27. Ora, sucede o mesmo no que diz respeito aos meus usos, que aprendo de outros e se tornam meus, de maneira tal que sem eles não sou ninguém, nem sequer ‘eu’ : o processo de aprendizagem, por exemplo, da maneira de conduzir um automóvel, ‘fabrica’ o seu useiro, se se me permite a feia palavra, dando-lhe a espontaneidade dum talento singular. Também assim com a linguagem. Deste mecanismo, recorde-se como a linguística de inspiração saussuriana explicitou a dupla articulação das línguas humanas (A. Martinet) : as palavras são por um lado constituídas por fonemas (ou letras), por outro articulam-se em frases. Aqui, o que é que é retirado ? Os gritos elementares dos hominídeos nossos antepassados, mudados para fonemas, isto é para sons sem significação, que não são imagem de nada, não querem dizer nada (como as letras), retirados portanto do campo da significação e da troca directa : a partir deles, as línguas formam milhares de palavras com as quais se pode comunicar, encadeando-as em frases muito regradas, segundo regras sintáctico-semânticas (M. Gross) a que ninguém escapa, que se exercem em nós espontaneamente sem a gente saber como, segundo regras que são as mesmas para todos os falantes duma mesma língua (é este automatismo que se perde quando há ablação da área cortical de Broca). Estas frases, encadeadas por sua vez em discursos, permitem também que o sentido das palavras mais frequentes conheça uma variabilidade polissémica relativa e regrada, aumentando assim o leque das possibilidades de dizer. Esta dupla articulação, Martinet mostrou-o há mais de 50 anos, é correlativa, dum lado da economia fisiológica da nossa fonação, que não chega a articular de forma distinta senão algumas dezenas de sons simples (como as teclas dos nossos teclados), do outro lado da nossa capacidade de memória cerebral verbal, já que se diz que nós só utilizamos 3 a 5000 palavras, embora capazes de reconhecer até 30000. Como é que funciona esta linguagem assim adequada à nossa anatomia ? De tal maneira que, por um lado, as palavras e as outras regras da língua são comuns a todos, vêem-nos dos outros, e por isso nos podemos entender, enquanto que, por outro lado, essas frases integralmente regradas saem de nós muito espontaneamente - sem se pensar, sem que se possa pensar em todas as regras linguísticas utilizadas nelas, raramente alguém se engasga para encontrar uma palavra precisa – de maneira adequada à situação aleatória de conversa ou outra em que se fala. Com efeito, numa conversa – em que cada um toma o fio da palavra que acaba de ouvir para lhe acrescentar outra coisa, de acordo ou em contradição – só tem sentido porque cada um dos interlocutores é mais ou menos surpreendido pelo que o outro diz, não sabe de antemão o que o outro vai responder, tem por isso que ser capaz de improvisar segundo o fio aleatório da conversa, mas sempre seguindo as regras da língua, comuns a todos. Tal como um carro no tráfego da estrada. Paremos um pouco para pensar esta coisa extraordinária : nós pensamos espontaneamente com as palavras dos outros, com as palavras de toda a gente. É uma das maiores questões do pensamento ocidental, nunca bem colocada, que conheceu, desde Platão – a sua reminiscência (Ménon) e a sua maiêutica (Teeteto) -, as respostas mais diversas[5]. É que há aqui duas leis inconciliáveis que jogam indissociavelmente : a do senso comum, que todos partilham, por um lado, no comércio ou tráfego da chamada comunicação, e a da pulsão a falar singularmente de cada um, a se destacar pelo que diz como inédito, pulsão essa que levaria à loucura se não fosse constrangida desde a infância a conformar-se à pertinência do senso comum, a dissimular o que vem espontaneamente à cabeça (Flahault, § 63) e que, se estivesse constantemente em contradição com a lei de todos lhe valeria a reputação de ser estúpido, ou doido, e a ser marginalizado socialmente. Pelo contrário, em sonhos por vezes a loucura triunfa.
28. Estes mecanismos de autonomia não funcionariam de maneira autónoma, justamente, se não houvesse um outro tipo de retiro a não ser o do ‘motor’ : o retiro daqueles que dão o próprio mecanismo, as suas regras iguais à de todos os indivíduos, da espécie ou da língua consoante. A mãe dum mamífero que o traz no seu ventre (o pai tendo-se retirado logo após a cópula) retira-se de maneira progressiva : gravidez e parto, retiro que mantém a alimentação pelo seio, novo retiro com o desmame, aprendizagem dos gestos de ver e mexer, de andar e falar, e por aí fora, até que, adultos, deixam a casa paterna. Este retiro dos pais manifesta-se eloquentemente na morte destes, os filhos permanecendo autónomos sem eles : tanto no que diz respeito ao ADN que regula a sua alimentação e crescimento como pelo uso da fala. Os próprios poetas não dispõem para fazer um poema das palavras dos outros (Ma­nuel Gusmão) : a linguagem é este mecanismo fabuloso vindo totalmente de fora, duma tradição bem ancestral que – enigma dos enigmas – tornou possível o talento singular dum Borges, dum Char, dum Dostoiewski ; os rastos dos outros, daqueles com quem aprendemos tal ou tal palavra, tal ou tal saber, têm que estar totalmente apagados para que esses rastos falem em nós a nossa palavra autónoma. Se escutássemos as vozes dos outros nesses vestígios (traces), como nos sonhos eles se manifestam por vezes, se ouvíssemos os nossos mestres a ditar-nos ao ouvido o que dizer em tal ou tal situação, seríamos alucinados, loucos.
29. Já que a lei é heteronómica, dada por outros, esta doação tem que se apagar absolutamente. Dir-se-á que se trata de mecanismos de autonomia com heteronomia apagada. Tanto é verdade da comida que nos é dada todos os dias para se tornar a nossa substância vital como de tudo o que se aprende ao longo de toda a nossa vida ; ainda que saibamos aonde aprendemos isto ou aquilo, quando usamos o nosso saber ao falar ou escrever, a recordação dessa doação está absolutamente apagada. E é sem dúvida esse apagamento absoluto que explica que ela tenha passado, ainda em nossos dias, segundo parece, desapercebida dos cientistas dos diversos domínios que se ocupam dela. O próprio Heidegger, cujo pensamento sobre o ser e o Ereignis permite esclarecer isto de maneira tão espantosa, não parece ter-se apercebido de todo o alcance do seu trabalho, inclusive ao nível dos seres vivos.


[1] Variável segundo os tecidos especializados e o aleatório do que se come, dos teores atmosféricos, as necessidades da célula em moléculas gastas, etc.
[2] Tensão, temperatura, pH, teor de oxigénio e outras moléculas essenciais, etc.
[3] E a da espécie nas épocas do cio.
[4] Ao contrário do que se diz habitualmente, esta não é um ‘mecanismo’, mas uma ‘lei’ da evolução.
[5] Trata-se duma longa história. No que nos diz respeito, os Europeus clássicos do século 17, na sequência de Occam, ocuparam-se de ‘pensamento’, deixando à linguagem o papel instrumental da sua ‘expressão, do interior para o exterior. Trata-se tipicamente do logocentrismo que Derrida desconstruiu.

Um exemplo de obstáculo epistemológico

Um exemplo de obstáculo epistemológico

30. Gostaria de saber se a leitura do capítulo precedente trouxe alguma compreensão nova ao leitor informado no que diz respeito à biologia ou à linguística. O esboço de fenomenologia aí exposto, não o encontrei em nenhum dos livros de especialistas que me ensinaram o que posso saber nesses domínios[1]. Se o que avanço se revelar esclarecedor ao nível da divulgação, então terá que haver algures um obstáculo do lado dos cientistas, que não poderá ser senão de ordem epistemológica ou filosófica, deverá ter a ver com o nível em que este ensaio se situa. Com efeito, se esta proposta de filosofia com ciências tem algum cabimento, as ciências, filhas rebeldes da filosofia, devem ter guardado nelas – sem o saberem – algo da mãe. Tendo-o contactado por correio electrónico após uma passagem recente em Portugal, a réplica de Edgar Morin ao meu projecto esclareceu-me bastante : « há disjunção completa entre filosofia e ciências ». É de prever que seja uma visão das coisas, de índole positivista, bastante partilhada pelos cientistas. Tenho pois que insistir : não tenho nenhuma pretensão de ensinar a ninguém o que quer que seja de científico, tudo o que conto aprendi com eles. Tenho, sim, a pretensão de ensinar, inclusive aos cientistas, algo de filosofia que lhes poderá ser útil.
31. Retomemos então o exemplo da biologia. A grande descoberta da biologia molecular, quando se a compara com os outros domínios científicos retidos aqui, é o retiro estrito do ADN no núcleo da célula. Porquê este retiro ? A resposta é óbvia : tem que ser o mesmo ADN em todas as células (donde que muitos genes sejam inibidos, correspondendo a especializações de outras células), há que evitar que ele seja alterado, poupá-lo do metabolismo bioquímico. Ao nível deste, só o ARN mensageiro é utilizado e se degrada de seguida. É desta degradação que o ADN é retirado. Isto tem duas consequências. Por um lado, que o verdadeiro ‘motor’ das sínteses das proteínas seja o que o notabilíssimo biólogo italiano, Marcello Barbieri, chama o ribotipo, as diversas moléculas ribonucleicas do citoplasma, que têm que recorrer ao ADN a dado momento, sem que seja este a tomar a iniciativa (são necessários os mecanismos de regulação da expressão genética). Não há portanto que fazer do ADN o determinante de tudo o que sucede no funcionamento do organismo (no fenotipo, calão antigo que Barbieri retoma). É aí, creio, que os biólogos caiem na armadilha duma causalidade mecânica de origem filosófica e física. A segunda consequência : o papel do ADN e do conjunto do ribotipo limita-se[2] ao metabolismo, ao que se passa dentro da membrana celular (e nos seus arredores aquosos). Acima do nível celular, são os órgãos, segundo os dois grandes sistemas do organismo (o da alimentação e o da mobilidade, o cérebro regrando e articulando ambos num duplo sistema[3]), que se encarregam das diversas funções deste, as quais acabam por convergir na alimentação das células. O que significa que a lógica da evolução dos animais consiste no seguinte : no início da vida, as células, sozinhas ou em colónias, revelavam-se muito frágeis em ambientes com fortes variações, a evolução tendo consistido na junção delas e respectivas especializações de maneira que, ‘organizadas’, pudessem alimentar-se melhor, deixar o mar para a terra e até para os ares, etc.[4] Onde estará então o obstáculo epistemológico ? Julgo que numa espécie de visão ‘antropomórfica’ dos animais, opondo-os como ‘sujeitos’, ao mundo exterior, sujeitos que têm neles a sua dinâmica, que F. Varela chamou auto-poética ; ao contrário das máquinas, eles far-se-iam a si mesmos. Como se a nutrição fosse uma função do sujeito que se nutre (como a nossa maneira ‘civilizada’ de nos sentamos à mesa). Creio que se ignora assim a lei da selva (§ 26) que depende do que se pode chamar o princípio da conservação das moléculas de carbono. Estas não sendo infinitas, cada organismo tem que as ir buscar aonde elas estão : as plantas à atmosfera, os herbívoros às plantas, os carnívoros aos herbívoros. Não há pois auto-fabricação, mas uma cena de vida que fabrica os seus seres vivos, segundo uma lei geral de que cada um depende essencialmente e à qual tem que escapar o melhor que puder[5]. A biologia molecular, é o próprio Barbieri que chama a atenção para isso, imitou os filósofos das ideias do século XVII que colocaram a linguagem em posição secundária, instrumental[6] : aqui, foram os ribonucleicos que foram instrumentalizados.


[1] Com diferenças, sem dúvida : a minha formação de base é de engenheiro civil e depois tive uma licenciature em teologie em Paris ; no que diz respeito às outras ciências, defendi uma tese de doutoramento sobre a epistemologia da semântica saussuriana, enquanto que só conheço a biologia, a antropologia e a psicanálise por leituras de curioso. É notável que nenhum dos livros de biologia que li fazem referências significativas à anatomia, como se esta não contasse para a biologia molecular. A minhaa evocação dos §§ 23-24 não teria sido possível sem a Biologia das paixões de J.-D. Vincent.
[2] Salvo em casos excepcionais, as células das glândulas que produzem hormonas por exemplo.
[3] Eis uma lei que se repetirá noutros domínios : não são dois sistemas articulados, mas trata-se sempre de uma dupla articulação. É aonde Prigogine é importante : uma dada cena, quando está peltórica, desdobra-se numa outra cena que sresolve, segundo outras leis, o caos que a tornou necessária.
[4] O chamado ‘meio interior’ (Claude Bernard), sangue e linfa, assim como a seiva nas plantas e o líquido amniótico dos ovos e fetos, correspondem à necessidade estrutural do ‘mar’ como meio ambiente das células.
[5] Igualmente para os carros : a lei do tráfego (da cena) é primeira, não se fazem estradas nem fábricas ºpara ‘um’ carro, mas para milhares. Cada um dde nós, todavia ‘pensa’ no seu carro, condu-lo para o seu destiono escapando aos outros.
[6] Foi por a grande descoberta de Saussure, « na língua não há senão diferenças », ter permitido aos linguistas libertarem-se em parte deste obstáculo, que esta ciência teve no estruturalismo o papel de farol das outras ciências sociais.

As descobertas científicas mais importantes

As descobertas científicas mais importantes

32. É agora mais fácil dizer quais são, do ponto de vista fenomenológico proposto aqui, as principais descobertas científicas do século XX, que revolucionaram os respectivos domínios. Estes são os campos dos ‘fenómenos’ (duma palavra grega que diz o que se manifesta, o que aparece). Campos e fenómenos estavam já mais ou menos bem delimitados, entregues havia muito tempo à azáfama científica. A novidade – independentemente uns dos outros, excepto no que diz respeito a Lévi-Strauss – consistiu na descoberta do que se poderia chamar não-fenómenos : retirados, retraídos da fenomenalidade e tornando-a possível. Primeiro, o núcleo dos átomos, cujos protões e neutrões são retirados do campo de gravitação e do das transformações químicas (de que a física e a química respectivamente se ocupam), os quais núcleos tornam possíveis quer as moléculas quer os graves. Em seguida, o ADN retirado no núcleo da célula, de que se acabou de falar, relacionado com o sangue que vem alimentar cada célula. Em seguida, também já falámos dos fonemas (ou letras) da linguagem, tornando possíveis as palavras e as frases inesgotáveis das nossas conversas e textos, justamente porque retirados do campo da significação. Viremos mais à frente a contrastá-los com os seus parentes próximos, a escrita matemática, a música e as imagens. Depois a psicanálise, de que teremos que renunciar aqui a justificar a sua cientificidade retorcida, atravessada, diagnosticou imediatamente o domínio retraído, o recalcamento das pulsões sexuais e agressivas em relação ao parentesco próximo, como condição das ‘relações psicológicas’ com outrem, oscilando entre o amor e a rivalidade. Enfim, a descoberta por Lévi-Strauss da correlação entre o interdito do incesto – o retiro das relações sexuais de consanguinidade, universal de todas as sociedades humanas – e a estruturação exogâmica da sociedade segundo o seu sistema de parentesco, cuja lógica não consciente decifrou ; sem ser, nem de perto nem de longe, a primeira pedra da cientificidade no domínio das sociedades[1], ela parece-me ser a decisiva, aclarando de maneira luminosa o núcleo social que tece qualquer sociedade humana, quaisquer que sejam as complicações posteriores, devidas às invenções técnicas e às escritas[2].
33. Foi este o esquema primitivo desta fenomenologia, tal como o compreendi nos meados dos anos 80, em que o motivo decisivo era o double bind que Derrida tinha ido buscar a G. Bateson : um ‘duplo laço’ que ainda não conhecia a existência de duas leis indissociáveis e inconciliáveis, nem sequer o de retiro (mas já incluía o automóvel). Com efeito, este não é senão uma das três formas de retiro que vim a diagnosticar mais tarde, que chamei retiro estrito, aquele que retira algo que fazia parte da cena precedente caótica. Tornado mais complexo, ver-se-á depois, com a descoberta de dois outros tipos de retiro correlativos do primeiro[3], este esquema veio a estender-se, com a experimentação da escrita, a estados intermediários, quer da evolução biológica, quer da história dos humanos.
34. Quanto ao obstáculo epistemológico que me parece impedir os cientistas de abraçar melhor o conjunto do seu domínio e de os articular aos dos vizinhos, pode-se dizer que ele tem o mesmo perfil no que diz respeito às ciências dos seres vivos, das suas línguas, sociedades e ‘psiquismos’. Trata-se da separação dualista, ainda que atenuada, da oposição entre sujeito e objecto, que os biólogos transpõem aos animais. Digamos que é importante aqui o passo de Heidegger em ruptura com Husserl, propondo em 1927 que os humanos são ‘seres-no-mundo’, estão no exterior deles mesmos ; mas há que levar mais longe esta proposta espantosa, há que dizer que eles recebem-se do exterior, que, tal como os mamíferos, eles são estruturados a partir da cena e para poderem circular na cena, tornearem os obstáculos e sobreviverem. Quer dizer que a diferença entre mim e o mundo que me é exterior não é originária, mas construída, duma maneira que a psicanálise permite abordar, na medida em que ela conta como o ‘eu’ é desligado do dual imaginário com a mãe pelo recalcamento, vindo a opor-se ao outro que lhe dita a lei, a aprender e a cultivar a sua ‘interioridade’[4]. Voltaremos sobre este obstáculo nas ciências das sociedades, em linguística e na neurologia.
35. No que diz respeito à física, a questão é mais delicada, maior o risco do aprendiz de fenomenologia se enganar. O que me incomoda no discurso físico, é a expressão ‘mundo quântico’ ou ‘mundo das partículas’, a maneira como se fala desse ‘mundo’ como se se tratasse do que chamamos ‘a matéria’[5]. Porque me dá a ideia de que se trata sempre de coisas fabricadas em laboratório e nos grandes aceleradores, com existência muito fugitiva, portanto incapazes da estabilidade que nós atribuímos aos termos ‘mundo’ e ‘matéria’. O que a teoria do átomo e da molécula nos ensina, é que eles só se aguentam por forças atractivas que atraem : quer os protões e os neutrões, no caso dos núcleos e das suas forças nucleares propriamente ditas ; quer dos protões e dos electrões no caso dos átomos, primeiro, e em seguida das moléculas e dos graves macroscópicos, a cargo das diferentes forças electromagnéticas enquanto atractivas ; quer enfim dos graves nos astros, no nosso sistema planetário, a cargo das forças da gravidade. São essas forças atractivas, muito enigmáticas, que dão estabilidade ao nosso mundo e ao que chamamos matéria (sólida, líquida e gasosa, nos casos tradicionais). Já Newton não conseguia figurar-se essa atracção, no caso à distância (« hypothesim non fingo », escreveu ele, não ficciono nenhuma hipótese, não a consigo imaginar), creio que a sua multiplicação por três não contribuiu para dissipar o enigma que permanece total. Pode ser que aqui o obstáculo epistemológico seja a separação[6] entre força e energia : esta sendo por essência dissipativa, explosiva, não serão as forças atractivas que a retêm (em retiros : estes são todos de ordem entrópica, à maneira de Prigogine) de forma a que possa haver a estabilidade do mundo e da matéria ? Se o percurso dos átomos para as partículas é a explosão nuclear, como conceber o percurso inverso, das partículas livres aos átomos ? Nomeadamente como é que é ultrapassada a barreira das forças nucleares ? A explosão dita Big Bang, não seria já ela uma desligação, forças atractivas que rebentaram, à maneira das explosões que nós conhecemos ? Seja como for, o motivo físico das forças atractivas e constitutivas (dos átomos, moléculas, graves e astros) ser-nos-á útil noutros domínios.


[1] O contributo de Hegel e sobretudo de Marx, na época deles, ficou confinado às sociedades modernas industriais.
[2] O livro O Processo civilizacional de Norbert Elias esclareceria o prolongamento deste núcleo, nas sociedades modernas, às unidades sociais onde mulheres e homens não ligados pelo interdito do incesto estão lado a lado várias horas por dia.
[3] Um retiro regulador (da homeostasia do sangue, por exemplo, segundo os acasos da cena da selva) e um retiro doador (dos progentopres, dos mestres).
[4] Todos temos experiência de que esta nos não é dada de bandeja, que pede um longo trabalho intelectual e espiritual.
[5] Felizmente que também falam de ‘anti-matéria’, o que parece sublinhar que, tratando-se do mesmo ‘mundo’, não é nem o nosso ‘mundo’ nem a nossa ‘matéria’.
[6] É certo que aqui não se trata da separação sujeito / objecto, mas qualquer ‘separação’ exclusiva é suspeita a olhos derridianos.