terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Da autarcia à heterarcia

Da autarcia à heterarcia

57. As lógicas das duas modernidades, das sociedades de casas e das sociedades de instituições e famílias, são portanto muito contrastadas, tanto quanto as suas formas de energia. Aonde reina a energia biológica, há que aprender a guiá-la e fazê-la frutificar, sem se ter nunca o controle suficiente : nem da fecundidade agrícola nem do gado, nem de que haverá herdeiros machos. Os mitos religiosos, que contam sempre que a fecundidade é o segredo dos deuses, parecem ser correlativos desta dependência das sociedades em relação à ‘natureza’, à phusis de Aristóteles. Com uma espécie de compensação, todavia : as casas agrícolas, quando tudo corre bem, bastam-se a si mesmas, são autárcicas, assim como as cidades na sua região envolvente. O comércio (como a escola aliás) foi sempre marginal a essas populações, coisa das cidades, e sobretudo do rei e dos nobres, comércio de luxo. O saber-fazer, dos camponeses e dos pastores como dos artesãos e dos guerreiros, aprende-se em casa, de pai em filho e de mãe em filha, com eventuais segredos das casas, pedindo habilidade diante das circunstâncias aleatórias. Este saber-fazer, tão desprezado pelos modernos, tem no entanto o selo do seu valor : foi ele que permitiu à casa chegar aonde chegou, há pois que o repetir o melhor possível. Quer dizer que a herança é a trave-mestra das casas (e não os afectos) : do nome e da sua honra, das terras, rebanhos e edifícios, dos saber-fazer e até das virtudes. O preço desta autarcia é que nestas sociedades não há indivíduos, em sentido moderno : as pessoas pertencem às casas, em que a vida toda delas está integrada e submetida à lei paterna. Mesmo o pai, fora de casa, não vale senão pelo peso dela.
58. A lógica das sociedades contemporâneas é a inversa, ponto por ponto, ou quase. Rapidamente cada um se torna indivíduo na medida em que é habitante de mais duma unidade social (família e escola, emprego mais tarde), sem portanto ser ‘integrado’ inteiramente por nenhuma[1]. A especialização das unidades sociais, numa rede imensa que as fronteiras não param, já que as máquinas não as conhecem e que as moedas estão a encontrar maneiras de se aguentarem juntas, ou até de se unificarem. Foi o que Heidegger pensou no motivo do Ge-stell. Uma fábrica implica fazer antes de mais um organigrama e os respectivos cálculos, isto é re-presentar, colocar diante (darstellen) o conjunto, programá-lo. Depois há que requisitar (bestellen) as máquinas, as matérias-primas, etc., e colocá-las (stellen), incluindo os em­pregados (stellung, em­prego). Trata-se das condições - de razão – prévias ao pôr a fábrica a andar pelo capital investido (colocado), condições do seu ‘controle’ sobre cada ‘coisa’ que ele interpela para a obrigar a ‘dar razão’ (também stellen) e poder portanto comandá-la, requisitá-la, seguir de perto. Ora, isto é verdadeiro também de todas as outras fábricas já em marcha e das outras instituições. Foi a esta heterarcia programada por uma razão que calcula e prevê que Hei­degger chamou Ge-stell[2] : o que reúne (ge-) as diversas ‘colocações’ e ‘empregos’ e as directivas das ‘re-presentações’ que se fazem da marcha do conjunto e que, a partir da ciência física, « põe a natureza em intimação (stellt) de se mostrar como um complexo calculável e previ­sível de forças” (1958, p. 29). Enquanto tal, a rede não tem controle ; com efeito, ela não pode parar (sem perdas e desperdícios de toda a ordem, de lucros mas também de salários, claro), o que implica uma espécie de imperativo : ‘Isto tem que andar’. Cada um – administrador, banqueiro, ministro, tanto como o operário e o servente – tem que estar no seu posto, no seu ‘emprego’ no sistema, sem que haja lugares ‘de fora’, nem divinos nem transcendentais. Quando há crise, preço da heterarcia, toda a gente é atingida, mesmo se alguns se podem defender melhor do que outros.


[1] Outro exemplo de individuação impossível mas sociedades antigas, em que aprender era tornar-se equivalente e futuro substituto do mestre : aprende-se a utilizar máquinas que não se sabe como são feitas, assim como se lêem livros muito diferentes, sam ter a especialização dos seus autores.
[2] Sem ser fácil de traduzir, corresponde no entanto etimologicamente ao grego sín-tese ou ao latino com-posição.

Aristóteles e Kant

Filosofia com história : o exemplo de Aristóteles e de Kant

59. Num outro texto, Heidegger chama Gestellung à phusis de Aristóteles, a ‘natureza’, o que sugere que, sem o explicitar, ele teria pensado na variação desta palavra a diferença entre os dois tipos de sociedade, umas movidas pelas energias dos vivos e as outras pelas das máquinas. Sabe-se a importância que tem o motivo da autarcia em Aristóteles, a quem se deve o da ousia (tanto a ‘substância’ dos vivos como a sua commum ‘essência’, digamos aproximativamente). Se se compara com Kant, que introduziu a física de Newton na sua metafísica (Vuillemin) e em consequência excluiu a ‘substância’ – a ontologia torna-se gnosiologia, o ser é interpretado como ‘tese’ (Heidegger) -, poder-se-ia verificar que os seus pensamentos correspondem cada uma ao tipo de civilização de cada modernidade[1]. Assim, por exemplo, a autonomia do sujeito kantiano, que tem nele as categorias do pensamento gnosiológico (racional e científico), é adequada ao novo indivíduo que está a emergir para uma civilização Ge-stell, a saber de tipo científico e técnico, enquanto que as categorias de Aristóteles diziam mais respeito às narrativas dos seres vivos (quem, quando, onde, qual, quanto, em que posição, fazendo ou sofrendo o quê, um pouco como as dos jornalistas). Quer isto dizer que o contraste tão forte dos seus pensamentos releva das diferenças estruturais das respectivas civilizações, que são as diferenças entre duas Físicas, a dos seres vivos e a dos inertes. Se isto for admitido, podem-se encontrar paralelismos de espanto, com um projecto geral semelhante, digamos para privilegiar o movimento sobre a substância, a) sabendo-se que aquele é relativo (é também o caso da geração e da corrupção em Aristóteles), b) sem cair no relativismo (dos empiristas e sofistas) e c) criticando o eterno ou absoluto (Platão e Descartes ou Leibniz), a separação dualista entre o céu das ideias e a terra das coisas. Ora, este programa não é possível senão na medida em que a sintaxe teórica proposta[2] seja simultaneamente a do sujeito que conhece (Kant) ou do logos (Aristóteles) e do movimento físico na sua causalidade, este ‘e’ designando o lugar irredutível nos dois pensadores da experiência sensível a caminho do conhecimento inteligível. Quer dizer que, tanto num como no outro, mutatis mutandis, as categorias (de pensamento) são também o que unifica as causas do movimento físico : não se trataria de ‘duas’, uma do pensamento e outra do movimento, mas duma só (ousia, em Aristósteles, é tanto a essência quanto a substância). Assim como em Kant o transcendental torna possível o empírico na síntese a priori, há que compreender que em Aristóteles, também o logos ‘antecipa’ (acolhe e unifica) aquilo de que se pode falar, sem separação entre ideal e real. Esta síntese a priori acaba por negar, no fundo, a oposição ‘análise / síntese’, isto é que haja um qualquer ‘antes’ da dispersão : os númenos das coisas em Kant teriam um estatuto próximo quer da ousia primeira, a ‘substância primeira’ ou substrato de cada ente particular, não susceptível de ciência, cognoscível apenas no seus ‘acidentes’, quer da hulê, a ‘matéria’ aristotélica – que não é verificável senão informada por uma forma – a qual desaparece em Kant (no sentido pelo menos em que o fenómeno é o que aparece) com os númenos, a coisa em si desconhecida, a existência do Mundo.
60. E encontramos outra semelhança : o gesto aristotélico de criticar as Ideias eternas de Platão, gesto que permite conhecer as coisas deste mundo, é a aproximar da colocação por Kant de Deus fora do conhecimento humano, e portanto também da sua contestação das provas da existência de Deus. Porque se trata do mesmo gesto : a recusa dum referencial absoluto (exterior) para o conhecimento. É certo que os argumentos escolásticos a favor da existência de Deus (excepto o ontológico, claro) são de origem aristotélica, o que depende da sua física, do privilégio dos seres vivos como tendo o movimento por eles mesmos (euatô); em Kant, é a inércia dos corpos da física newtoniana que, relativizando a ‘substância’ – como massa mensurável ou quantidade de matéria, portanto em relação essencial com outras massas, não há massa senão em relação a outras massas (§ 66n) – e atribuindo qualquer modificação do estado inerte dum corpo (em repouso ou em movimento rectilíneo uniforme : isto é qualquer efeito de aceleração, positiva ou negativa) a forças exteriores ao corpo (recusa pois da « força de inércia » de Newton), é pois essa inércia do movimento físico que despede o Deus dos filósofos. A alma imortal, com a sua relação privilegiada às Ideias ou a Deus, também é despedida do conhecimento, tanto em Aristóteles como em Kant, pelas mesmas razões realistas, como se diz : para que o conhecimento possa começar exclusivamente pela experiência sensível, sensações, percepções, imaginação, etc. É, em cada um à sua maneira própria – autarcia e autonomia respectivamente – a afirmação racional e com brio da finitude humana. Tão opostos nas respectivas físicas, tão próximos no entanto no grande gesto filosófico : será necessário afastar-se tanto dum pensador para se tornar seu próximo ?


[1] Havendo o cuidado, é claro, de precisar que as relações entre os diversos elementos da civilização moderna europeia não se explicitaram simultaneamente, mas com disparidades cronológicas : a máquina a vapor foi inventada cem anos antes da termodinâmica que fornece a teoria dela, ou então as armas de fogo, substituindo as armas brancas da civilização ‘natural’, surgiram na viragem do século 15 para 16, um pouco antes do protestantismo. E se Napoleão toca o sino pela morte da conquista, também inaugura com o seu código civil a administração moderna.
[2] Que leva Kant a ultrapassar o atomismo, como Aristóteles recusa o de Demócrito.

O quadrado das inscrições

O quadrado sinóptico das ‘inscrições numa matéria de empréstimo’

61. Façamos um parêntesis para olhar, na cena da linguagem, outras estruturas diferentes dela. Distingamos entre os usos sociais os que são do género técnico doutros que não o são : os rituais, as leis, outros usos parecidos. Aonde situar a linguagem ? Como a caracterizar entre as estruturas da habitação humana ? Não se trata dum uso como os outros ; se também se aprende, quão lentamente !, e se se reproduz portanto de geração em geração tal como os outros, ela tem a especificidade de ser necessária também, sob forma de receitas, para a reprodução dos outros usos. Esta característica parece ligada a uma outra que a distingue dos usos de tipo técnico, os quais têm, por assim dizer, uma função ‘substancial’ (construção, máquinas, instrumentos, alimentos, etc) que tem uma relação essencial com a matéria inerte de que são construídos : a linguagem, pelo contrário, é constituída por um jogo diferencial de elementos, de palavras duplamente articuladas (s 27) que se inscrevem numa ‘matéria’ outra, sonora ou superfície (os sons das gargantas humanas ou do morse dos telégrafos, os papeis ou equivalentes das escritas, os buraquinhos salientes do braille)[1] e mudam dela facilmente, já que destinados a trocas entre vozes e ouvidos. Ora, esta forma de inscrição da linguagem é comum a outros jogos de diferenças, como a música, os caracteres matemáticos e as imagens. A primeira partilha a matéria de inscrição com a linguagem propriamente dita, a oral, mas também é susceptível de notação escrita, a qual por seu lado é essencial às operações com números e às imagens. Temos hoje uma maneira cómoda de distinguir estes quatro tipos de inscrição dos outros usos técnicos : só eles são susceptíveis de transmissão ao longe por fios eléctricos ou ondas electromagnéticas, de serem reproduzidos em computador.
62. Já que parece que não há nome comum a estes quatro tipos de inscrição, diferenciais e não ‘substanciais’, pode-se alargar ao conjunto a expressão de Alain, citada por P. Somville, para caracterizar a pintura : « inscrição numa matéria de empréstimo » (p. 46). Tratar-se-á aqui dum ensaio de caracterização recíproca destas quatro formas de inscrição, segundo um quadrado (quase) sinóptico. Para o fazer, tomaremos uma característica que lhes é comum à excepção das imagens : os seus elementos articulam-se segundo uma linearidade ao mesmo tempo espacial e temporal, de maneira tal que se distinguem reciprocamente sem se sobreporem (salvo as harmónicas musicais), são compostas (implicitamente) por operações de comutação (dos linguistas). Eis o quadrado. A linguagem oral e a sua escrita alfabética são duplamente articuladas, já que formam as suas frases por articulação (sintaxe) das unidades de referência às coisas, as palavras, que por seu turno são compostas por unidades imotivadas (os fonemas e as letras, que não são referência nem imagem de nada, não têm significação). A escrita matemática articula apenas unidades de referência, números, letras e signos sintácticos de operação, cuja significação é convencionada previamente : ela ignora portanto o nível das unidades imotivadas. A música também só tem uma articulação, mas é de unidades imotivadas (as chamadas notas musicais), já que sem referência, com as quais são compostas as melodias musicais. As imagens, por fim, unidades de referência por definição, não se articulam linearmente, são compostas em superfícies ou planos sem que se possa sequer falar de elementos discretos, de segmentação.
63. Este quadrado sinóptico permite deduzir as propriedades principais destes quatro tipos de inscrição numa matéria de empréstimo. As línguas duplamente articuladas utilizam a polissemia das palavras mais frequentes como maneira económica essencial que permite uma grande variabilidade de discursos, de estilos e de performances, desde as diferentes poesias e literaturas até aos textos gnosíológicos das ciências e filosofias (que se defendem como podem da polissemia através da definição). Tratando-se de línguas necessárias a qualquer sociedade para a reprodução dos seus outros usos, a imotivação das suas unidades elementares teve como consequência histórica a multiplicação das línguas, separando as populações em indígenas e estrangeiros, quaisquer que sejam as incidências genealógicas dumas sobre as outras[2]. Não há universalização sem tradução, o que é um grave problema para a universalidade da razão europeia. A articulação matemática apenas das unidades de referência exclui a polissemia e torna possível a exactidão desta escrita e a sua ‘verdade’, o erro sendo de ordem puramente sintáctica ; mas os limites dos caracteres ‘letras’ (para as constantes e as variáveis) mostram como as matemáticas sãs estruturalmente fragmentárias[3], segundo equações respondendo a problemas específicos (definidos pela constelação das suas variáveis) e não formando textos (que supõem sucessões de frases diferentes quanto ao sentido) ; sendo essencialmente escrita, ela não depende nem das línguas orais nem dos alfabetos[4], é portanto universal de jure. Imanente, uma vez que sem unidades de referência, a música é a única destas inscrições que possa ser dita abstracta, insusceptível de verdade e com liberdade máxima de composição. O próprio da imagem, sem articulação de elementos discretos, é ser singular, nem resumível, sem polissemia (em sentido estrito) nem ‘sentido’. Só existem em composição, em geral rectangular ; a arte da fotografia, do cinema e da pintura é justamente a da composição dos planos, do que há que incluir neles e excluir, da escala (do grande plano à panorâmica) e da perspectiva. Susceptíveis de ficção desde sempre, o quadro e o desenho, e por isso dubitativos quanto à verdade, a fotografia introduziu uma época de ‘verdade’ das imagens que está a acabar com a sua digitalização recente.
64. A questão da liberdade e da verdade no que respeita às línguas duplamente articuladas é mais complexa e merece reflexão à parte. Se nas línguas não houvesse senão a liberdade musical sem nenhuma verdade possível, seria a anarquia das liberdades, ninguém se entenderia. Se, pelo contrário, só houvesse a verdade exacta das matemáticas, falaríamos como máquinas, sem nenhuma liberdade. Se enfim as palavras fossem singulares como as coisas a dizer, permitindo milhares de ‘fotos’ diferentes de cada uma, elas seriam pura e simplesmente inúteis. Ora, enquanto que as outras inscrições são em geral negócio, senão de especialistas, pelo menos de gente dotada, a linguagem oral tem que ser – como os outros usos comuns da tribo – o bem de toda a gente, permitindo a cada um, não só marcar o seu lugar singular como antes de mais de pensar e ser estruturado como ser humano. A dificuldade é que tornar-se singular no seu estilo e nas suas performances quando se tem que aprender dos outros e a repetir as regras deles para se fazer entender e aceitar. Um texto curto e muito forte de F. Flahault (1979) resolveu a questão, sublinhando como numa conversa há sempre um só lugar que se tem que tomar : quem fala tem que fazer valer o seu direito a se fazer ouvir pelos outros, a sua pertinência[5]. Ora esta não nasce espontaneamente, tem que ser cultivada e para tal é preciso ser corrigido pelos outrros, aprender a não dizer logo o que vem espontaneamente à cabeça, a criticar-se a si mesmo primeiro, silenciosamente, para evitar a crítica social, ou seja a aprender a dissimular, a guardar segredos, a cultivar o seu foro interior, a sua ‘vida interior’, o seu pensamento, em suma. Esta capacidade de dissimulação é também a condição da mentira que pode fazer mal a outrem, sem dúvida, mas é a arte do actor, da ficção literária e artística. A singularidade de cada um implica a sua distância, o seu retiro em relação ao dizer dos outros, não lhes sofrer os constrangimentos impostos sem os avaliar. A linguagem duplamente articulada, elíptica e polissémica, presta-se muito bem a esse efeito.


[1] Com algumas diferenças devidas à diferença das matérias de inscrição (a linguagem oral não faz um intervalo entre todas as palavras como a nossa escrita alfabética, por exemplo, em que o branco faz parte do sistema de diferenças), trata-se no essencial do mesmo sistema.
[2] Assim as línguas latinas, de que se conhece bem a língua-mãe, não deixam de tornar os seus indígenas estrangeiroos aos das outras.
[3] E exaustivas, enquanto que qualquer discurso em lºíngua é estruturalmente elíptico.
[4] Apesar das convenções de definição das unidades precisarem das línguas, elas operam automaticamente, as calculadoras são testemunhas.
[5] Como é óbvio quando se trata de publicar, em artigo de jornal ou em livro, o problema é o mesmo.

O retiro regulador das oscilações

O retiro regulador das oscilações entre pequenas repetições e acontecimentos

65. Após este longo percurso através das ciências das sociedades[1], voltemos à questão dos retiros constitutivos dos tão diversos fenómenos das diferentes disciplinas científicas, a fim de poder abordar um pouco melhor a questão mais difícil, a dos respectivos double binds. O que chamei, com inspiração heidegeriana directa, retiro doador, diz respeito à ‘vinda ao ser’ destes mecanismos autónomos vivos, à maneira como os mecanismos que estão na origem deles os ‘deixam ser’ autónomos de maneira progressiva, segundo a temporalidade do seu tamanho : retirados, esses doadores permanecem ‘apagados’ nesses mecanismos, que são o ‘rasto’ deles (Derrida). Enquanto que o retiro estrito – este de inspiração derridiana – faz parte dos mecanismos, retém a energia demasiada em repetições que se podem dizer automáticas, já que fora de qualquer interferência directa : no caso do automóvel, por exemplo, é impossível pôr a mão no cilindro onde se faz a explosão da gasolina ; o núcleo atómico é inexpugnável nas condições terrestres de temperatura ; os biólogos defendem como dogma que o ADN não recebe aquisições do ambiente ; o sistema fonológico de cada língua resiste também às mudanças na longa duração, reformula a fonética das palavras estrangeiras recebidas[2] ; o interdito do incesto permanece inexpugnável quando todos os ‘tabus’ sexuais parecem ter caído ; o próprio nome de recalcamento diz como tudo o que se aproxima dele é engolido com ele. O elenco é eloquente : obviamente que estas repetições automáticas não são adequadas às cenas em que a lei obriga a ter em conta o aleatório provocado pelos outros mecanismos autónomos, é portanto necessário que haja entre eles um mecanismo de regulação, que deve ter a espontaneidade da autonomia e a maleabilidade rigorosa da adequação à cena dos outros, à sua lei de circulação. No caso do carro, o mais simples porque sem auto nutrição, esta regulação é assegurada pelo aparelho, por tudo o que não é o motor cilíndrico de explosão. Desembraiado, ao ralenti, ele consiste apenas nas repetições estritas do êmbolo, a embraiagem e a caixa de velocidades são mecanismos de oscilação que permitem à máquina mudar de comportamento segundo os acasos do trânsito, de travar quando a toda a velocidade ou, pelo contrário, a acelerar depressa quando a estrada se abre, ganhar intensidade, a exaltação de guiar : trata-se do acontecimento em relação à monotonia dum engarrafamento, feita de pequenas repetições, pára, arranca. Estes mecanismos repetem-se – como uso – no condutor do carro. Ele aprendeu a regular as pequenas repetições da máquina e as suas oscilações, a ter também pequenas repetições automáticas na condução, a tornar-se ele próprio em certo sentido uma peça da máquina, já que os seus movimentos têm que seguir os acasos do tráfego quase maquinalmente, automaticamente, sem dar quase atenção, com a espontaneidade da habilidade, atento à direcção a tomar, aos outros carros, aos sinais do trânsito na estrada, com uma espécie de atenção flutuante, em calão psicanalista, que as pequenas repetições, com o seu automatismo, tornam possível. A atenção está sempre na expectativa dum acontecimento sempre possível ou à procura duma intensidade de velocidade, num rally, por exemplo, uma perseguição de carros num filme de acção.
66. Podem-se dar para a linguagem exemplos semelhantes de oscilações entre pequenas repetições e acontecimentos. Os fonemas (ou letras) são repetições estritas, em que a voz que as diz tem um papel motor, de ex-pressão (ou os dedos no teclado, de im-pressão). Mas as frases que se dizem têm uma quantidade de regras de morfologia e de sintaxe, preposições, conjunções, acordo de género e número, flexão dos verbos, que nós fazemos automaticamente, sem pensar nelas. Podemos supor que escolhemos, muito rapidamente aliás, os nomes e adjectivos, verbos e advérbios, mas eles chegam-nos à boca já encadeados em frases linguisticamente correctas. Poderíamos falar se tivéssemos que dar atenção a cada uma dessas regras ? Não posso evitar de falar aqui do livro mais extraordinário, do ponto de vista da metodologia linguística[3] : em 1975, pela primeira vez desde as gramáticas da Antiguidade, o livro Méthodes en syntaxe de Maurice Gross apresentou um análise de cerca de 3000 ver­bos franceses, isto é uma análise bastante perto da exaustividade dos verbos franceses mais frequentes, algo que nenhum linguista antes dele parece ter sequer sonhado (sempre só se trabalhou com alguns exemplos). Ele apresenta 19 quadros em que esses 3000 verbos são classificados segundo a sua aceitação de frases completivas em posição quer de sujeito quer de complemento[4], cada quadro dando um número maior ou menor de outras propriedades sintáxicas permitindo distinguir os seus verbos num conjunto de 2000 classes (1,5 em média) de verbos segundo as suas propriedades sintácticas. Ora bem, são estas propriedades que em cada um de nós saem todas feitas, permitindo-nos ter uma conversa ou uma discussão, com todos os seus aleatórios e surpresas, a ponto de por vezes se dizer algo que surpreende o que o diz, lapso que faça rir ou ideia que dê que pensar.
67. As unidades sociais privadas que são retiradas estritamente, são-no para assegurar a rotina quotidiana dos usos, usos diferentes consoante as especializações, é claro, mas segundo gestos (de cozinha ou de higiene, escrever em papeis, pôr tijolos, arrumar caixas, que sei eu ?) que se repetem em todo o lado. Esta rotina, tão mal afamada, é todavia aquilo que qualquer empresa tem que assegurar para ter um mínimo de produtividade, já que esta seria nula, ou melhor extremamente negativa, se cada empregado tivesse que inventar os seus gestos minuto a minuto. Ela é, ao contrário do que parece que se pensa muitas vezes, a condição da habilidade e da agilidade diante de qualquer acontecimento, de qualquer dificuldade que haja que evitar ou resolver mais ou menos depressa : tal como na estrada, quando o acidente possível ameaça, há que dominar as pequenas repetições e não que inventar novidades ! Week-ends, feriados, férias, são para os que trabalham acontecimentos que interrompem essa rotina, como para o patrão a conclusão dum bom contrato ou, ao contrário, uma greve do seu pessoal, uma epidemia, uma revolução.
68. Igualmente para a biologia. Deixemos de lado a questão complicada do metabolismo celular, para olharmos esse espantoso ‘meio interior’ (Claude Bernard) que J.-D. Vincent (1986) expõe e cujo equilíbrio homeostático é o que está verdadeiramente em jogo em qualquer organismo animal. O equilíbrio do sangue entre dois limiares : de temperatura, pressões arterial e de osmose, taxas de oxigénio, açúcar, pH, e por aí fora. A rotina da respiração (com os seus acontecimentos : constipação, tosse, charuto, corrida) e a da circulação do sangue (acontecimentos : refeição ou jejum, indigestão, infecção, bebedeira), são pequenas repetições ao serviço da alimentação de cada célula do organismo, cujo metabolismo está em certo sentido em retiro estrito, constantemente repetitivo, do conjunto orgânico. Encontra-se assim portanto uma regulação entre pequenas repetições e acontecimentos que nos poderá ajudar a precisar melhor, embora de maneira breve, o que está em questão nisto : um equilíbrio instável, oscilante, porque dependente do aleatório exterior em que ele vai buscar aquilo com que manter a sua estabilidade. O jogo hormonal parece ser o principal mecanismo que vigia sobre este equilíbrio, quer jogando sobre órgãos internos, quer pulsionando a comportamentos (de predação, de fuga ao predador, ao frio ou ao calor, etc.). Para o conseguir, ele tem que estar ‘presente’ quando é preciso e ‘ausente’ quando não o é (a hormona que comanda o apetite duas horas e meia mais ou menos - o tempo da digestão chegar ao sangue - antes de as células precisarem do alimento, tem que ser anulada por outra de saciedade desde que a refeição seja suficiente, também muito antes de as células terem beneficiado). É esta oscilação entre presença e ausência que me parece característica desta regulação, a ausência sendo justamente um retiro disponível para qualquer eventualidade, à maneira da atenção flutuante do automobilista.
69. Este exemplo permite passar ao jogo do cérebro e da sua misteriosa memória. Por um lado, tem-se a oscilação entre a atenção agarrada pelo acontecimento (ou surpreendida por ele) e a atenção flutuante dos usos de rotina, depois entre esta e a relaxação divagante, e ainda entre esta e o sono, e ainda entre o sono profundo ou lento e o sono paradoxal dos sonhos. Por outro lado, tem-se a memória requerida por estas oscilações. Quem sabe dizer o que é que ela é, a memória ? Em princípio, a resposta é simples e exacta : ela não pode ser senão os grafos das sinapses neuronais (Changeux, § 24), sob forma química, que é susceptível de estabilidade em contraponto com o fluxo nervoso, de electricidade iónica (portanto capaz de química) que percorre esses grafos, grafados aliás pela repetição desses fluxos. Mais difícil é querer precisar melhor. Seja o exemplo da língua : quando eu, português, escrevo em francês, onde está a memória da minha língua ?[5] E vice-versa, quando falo português, onde está o meu francês ? A memória é ausência. Nós sabemos uma quantidade imensa de coisas desde que aprendemos a falar e que fomos à escola : é-nos todavia impossível ‘saber’ explicitamente esse imenso saber, expô-lo diante de nós à maneira duma enciclopédia pessoal, ele só nos vem em conta-gotas, quando o aleatório dum acontecimento atrai a nossa atenção e o faz vir (sous-venir, sub-vir, dizem os franceses). Uma lembrança não é nunca senão um fragmento ínfimo dessa memória que se torna ‘presente’, a imensa memória permanecendo ‘ausente’, esquecida. Retirada. Só vem ao apelo de outra coisa, ainda que uma simples associação de ideias, segundo regras que nos escapam quase totalmente[6], além das dos textos, linguísticas e culturais à vez, a que ela obedece, parece, regras essas que parecem ter desaparecido dos sonhos.
70. Será que as unidades sociais têm uma memória ? Poderia ser o paradigma de Kuhn, tal como ele o definiu[7], se o alargássemos dos sistemas de usos dos laboratórios científicos aos de qualquer unidade social : o que, atraindo-os[8], liga os diversos useiros para cumprirem os usos tal como os aprenderam dos mais velhos iniciados, o seu sistema de receitas, em suma, a memória social do que há que fazer. Desde que o cérebro seja requerido, linguagem, uso, aprendizagem, unidade social, a memória faz parte : ausente que se torna presente de maneira fragmentária pelos seus efeitos na cena em questão, retiro regulador que torna as repetições susceptíveis de adequação ao aleatório dos acontecimentos, da mesma maneira que, mutatis mutandis, o jogo das hormonas para regular o equilíbrio homeostático do sangue. Não se pode opor a estrutura e o acontecimento, a repetição e o singular, a língua e a fala, a sociedade (a espécie, a instituição) e o indivíduo, e por aí fora : nenhum destes termos é mais do que uma forma de oscilação entrópica com o outro do seu par.


[1] Bem maiscomplexas do que as outras : elas contêm os fenómenos de todas as outras disciplinas, sem que os seus sejam mecanismos autónomos semelhantes, mas estruturas ligando mecanismos, é talvez a razão pela qual estão menos avançadas, do ponto de vista fenomenológico aqui proposto.
[2] Mais os brasileiros do que os portugueses, no caso.
[3] O método supõe, é claro, a linguística gerale de Saussure (1972), Benveniste (1966), a dupla articulação (Martinet, 1967), muito importante para o fenomenólogo.
[4] Um exemplo ao acaso da p. 65, traduzível em sintaxe do português. Testes darão conta do funcionamento de tal verbo com as completivas no indicativo (para ‘saber’ : ‘Paulo sabe que Maria virá’ , mas não ‘Paulo sabe que Maria venha’) e de tal outro com as completivas no conjuntivo (para ‘querer’ : ‘ Paulo quer que Maria venha’, mas não ‘Paulo quer que Maria virá’).
[5] « Nos erros », responde Wally Bourdet que os corrigiu.
[6] A psicanálise jogou dde maneira muito astuciosa a associaçõa de ideias para encontrar algumas. Estas regras são pequenas repetições ? Como os velhinhos que se repetem frequentemente, ou nós quando algo nos preocupa muito e nos tornamos incapazes de pensar noutra coisa ?
[7] A Física de Aristóteles, o Almageste de Ptolomeu, os Prin­cipia e a Óptica de Newton, a Electricidade de Franklin, a Química de Lavoisier e a Geologia de Lyell, são performances que, escreve ele. « serviram durante muito tempo para definir implicitamente os problemas e os métodos legítimos dum domínio de investigação para gerações sucessivas de investigadores. Se puderam ter esse papel, foi porque tinham em comum duas características essenciais : écrit-il, “ont longtemps servi à définir implicitement les problèmes et les mé­thodes légitimes d’un domaine de recherche pour des générations successives de chercheurs. S’ils pouvaient jouer ce rôle, c’est qu’ils avaient en commun deux caractéristiques essentielles: leurs o que tinham conseguido era suficientemente notável para atraír [eu subl.] um grupo coerente de adeptos a outras formas de actividade científica concorentes ; por outro lado, eles abriam perspectivas suficientemente vastas para fornecer a este novo grupo de investigadores toda a espécie de problemas a resolver [eu subl.]. Às performances que têm em comum estas duas cracterísticas, continua Kuhn, chamarei doravante paradigmas » (pp. 30-31). A herança, a transmissão entre gerações (e portanto a aprendizagem) é-lhe essencial.
[8] Por vocação ao ofício, por um lado, pelo salário necessário para a alimentação, por outro (para muitos, infelizmente, só este é que conta).

A entropia de Prigogine

A entropia de Prigogine

71. Estes fenómenos de oscilações obrigam a fenomenologia a ter em conta a respectiva dimensão energética, a que nem as filosofias[1] nem as ciências dos fenómenos sociais e humanos estão muito habituadas. E é aonde a reelaboração do conceito termodinâmico de entropia por Prigogine se torna preciosa. Trata-se para este químico (Prémio Nobel em 1977) de compreender a possibilidade física da estabilidade de instâncias instáveis que ele chamou « estruturas dissipativas », o metabolismo celular sendo o domínio das suas investigações. Nestes fenómenos bioquímicos que recebem a sua energia do exterior, predominam reacções químicas não-lineares de auto-catálise, auto-inibição e catálise cruzada num conjunto de « milhares de reacções químicas simultâneas, que transformam a matéria de que a célula se alimenta, sintetizam os seus constituintes e rejeitam para o exterior os produtos não utilizáveis ». Estes fenómenos não podem ser estudados apenas ao nível molecular da química estabelecida, há que considerar também a organização super-molecular e ainda as flutuações que, em vez de regressarem ao estado de equilíbrio (de acordo com o 2º princípio da termodinâmica), amplificam-se e invadem todo o sistema, o qual evolui para um estádio instável, longe do equilíbrio, em que essas flutuações no entanto ficam estruturadas de maneira dissipativa. Em contradição com o princípio de ordem da termodinâmica estatística de Bolt­­z­mann, a dissipação entrópica produz uma nova ordem, que mão é inteligível senão ao nível macroscópico das células e permanece independente dos fenómenos moleculares microscópicos. Trata-se portanto duma produção de entropia[2] que cria uma ordem instável, de estabilidade longe do equilíbrio, longe da entropia nula da estabilidade tradicional em física.
72. Se se generaliza para a dimensão energética (entrópica) da cena de circulação de ‘agentes autónomos’, pode-se pensar que sempre que, historicamente, esta cena se encontrou em estado de uma pletora caótica, de turbilhões, sem saída ao seu nível, tê-la-á encontrado (Acontecimento, Ereignis) através da constituição duma nova cena (e portanto dum novo rodeio nos seus mecanismos entrópico-formais de autonomia com heteronomia apagada) ; esta nova (sub) cena é instável em relação àquela donde ela de desdobra, mas dotada duma nova lei e de novas regras, que lhe asseguram uma circulação estável. Assim o metabolismo celular é dum outro nível do que o das moléculas inorgânicas dos campos de gravidade, e as diversas aquisições estruturais mais importantes da evolução dos seres vivos – de que a sexualidade, a homeostasia do sangue e as redes sinápticas dos neurónios estão entre os exemplos mais extraordinários – poderão ser eventualmente estudadas como novas (sub) cenas na cena geral da selva. Elas prolongaram-se coma aquisição da utilização da mão e da boca para os usos técnicos e da fala nos humanos (Leroi-Gourhan), e de seguida para os diversos níveis sociais (agricultura, cidade, mercado, organização política monárquica ou democracia na Grécia, escola, igreja, etc., e assim de seguida até à revolução industrial, que poderão ser estudadas como produções de novas entropias. Ou sublimações, em linguagem freudiana. O motivo do suplemento (Derrida) permitirá pensar, com a contribuição prigoginiana, a maneira como estas (sub) cenas se desdobram umas a partir das outras.


[1] Derrida, com o seu motivo das différe/ances de forças, parece estar entre as excepções.
[2] Em geral, a entropia será a energia retida de forma estrita por forças atractivas.

A difícil questão neurológica

A difícil questão neurológica : cérebro, usos e discurso, sem o chamado ‘mental’

73. Venhamos agora à questão tão difícil da abordagem científica do cérebro, órgão tanto do corpo como do psiquismo humano ; muito difícil por se encontrar na raiz do dualismo filosófico greco-europeu entre o corpo e a alma (psychê, em grego), de que os neurólogos têm razão em desconfiar. Infelizmente sem se darem conta de que estão apanhados também por ele através da representação mental. A questão é a do estatuto do cérebro : órgão corporal sem a menor dúvida, inventado muito cedo sob formas embrionárias pela evolução biológica, mas também sem dúvida que órgão do pensamento. Ora, este segundo ‘sem dúvida’ merece ser matizado : o que nós chamamos ‘pensamento’, na medida em que não é dissociável da linguagem duplamente articulada[1], só bastante tardiamente se tornou uma função do cérebro dos antropóides que inventaram os primeiros utensílios e as primeiras palavras. Isto obriga a não nivelar as duas faces do cérebro e, por exemplo importante, a excluir imediatamente qualquer incidência dos genes dos neurónios dobre tudo o que releva do chamado psiquismo.
74. Qual é a especificidade dos neurónios entre as outras duas centenas de células especializadas dos vertebrados ? Quando se escreveu no § 31 que a eficácia dos genes e do ribotipo de Barbieri estava limitada ao metabolismo celular, deixou-se entender que as células são uma espécie de ilhotas que se agrupam em tecidos e órgãos. É verdade, mas justamente os neurónios são uma excepção : a sua especialidade é criar com as sinapses que os ligam uns aos outros uma ‘rede nervosa’ cerrada de afectação mútua, que permite ao conjunto de, através de órgãos perceptivos, ser afectado de fora e de se auto-afectar. Não de forma anárquica, é claro, mas segundo grafos (Changeux), dos quais sem dúvida muitos inatos, criados muito precocemente, enquanto que outros, pelo contrário, inscritos (grafados !) pela aprendizagem dos usos e da palavra. Estes novos usos acrescentam-se assim às funções do cérebro, articulando um velho cérebro ‘réptil’[2] ao novo cérebro das aves e mamíferos, onde justamente a melhor parte é sem dúvida reservada aos grafos da aprendizagem da maneira de habitar como humano.
75. Os especialistas do sono e do sonho mostraram como há em nós duas formas de sono, um lento de cerca de hora e meia que é interrompido, antes de retomar por outra hora e meia, por um sono agitado de uma vintena de minutos que M. Jouvet chama paradoxal. Seria nestes períodos mais breves que nós sonhamos, mas Jouvet não o pode saber pelos seus instrumentos e métodos que lhe permitiram discernir os diferentes sonos, tem que acordar os seus pacientes e perguntar-lhes : ‘você estava a sonhar ? com quê ?’. Sem parecer dar-se conta, ele assinala assim uma dicotomia entre duas abordagens do psiquismo, uma propriamente neurológica, à base de análises químicas e de instrumentos eléctricos, e outra, que há que qualificar como ‘discursiva’, que se faz pelo diálogo com o paciente (própria da psicanálise e de outras psicologias). Não é pois surpreendente que o seu livro se termine numa insatisfação quanto ao estudo neurológico dos sonhos[3]. No entanto, suponho que ele estaria de acordo para recusar a pretensão de dar conta, por meios neurológicos, das regras linguísticas das diversas línguas : todavia estas também se jogam essencialmente nos cérebros humanos. Há portanto que concluir que há um dualismo metodológico irredutível entre as duas abordagens do cérebro e do psiquismo (§ 107).
76. Mas não se trata com esta constação importante de ceder ao dualismo[4], antes pelo contrário. Peçamos auxílio aos engenheiros de dos computadores : esta irredutibilidade da abordagem instrumental do hardware e do software também se encontra entre eles. Com os seus meios de reparação do hardware, eles não podem saber que programa é que está a passar, em que linguagem, têm que perguntar ao operador, que está do lado do software. Igualmente, não se pode, com os meios eléctricos adequados (sem as membranas acústicas dos telefones), saber o que se está a dizer ao telefone pela análise da respectiva corrente eléctrica, nem assinalar os actores dum filme de televisão na corrente eléctrica que chega à antena. Nos grafos do cérebro, que são uma espécie de cabos eléctricos com corrente iónica[5], o problema é idêntico. Neles não há nem palavras, nem músicas, nem números (que os há nos ouvidos e na voz), nem imagens mentais, tal como no hardware dos computadores só há electricidade que passa (corrente de electrões, que não afecta quimicamente os fios) : as palavras e os problemas estão à entrada, nos teclados ou em cartas perfuradas, e à saída, nos écrans e nas impressoras. Não há no cérebro representações mentais, ideias, imagens que recordam alguém. É certo que é difícil de aceitar, mas é inútil procurá-los. O ‘mental’, tal como a ‘ideia’ inventada por Descartes e a ‘alma’ de Platão’, é uma ficção, o sonho de largar a materialidade, seja a do corpo como a das letras. O fenomenólogo põe assim, como tese filosófica, que estas duas palavras, ‘cérebro’ e ‘psiquismo’, nomeiam a mesma realidade ôntica e o velho conflito entre as suas duas abordagens possíveis, a da neurologia e da sua análise do ‘corpo’ e a da experiência da autoafectação e do diálogo. O ‘mental’ separa e opõe ‘sujeito’ no interior e ‘objecto’ no exterior. Mas se eu vir um objecto nunca visto antes, que portanto esteja verdadeiramente no exterior, não o percebo nem o conheço ; só conheço os que já estão inscritos em mim ; aquilo a que se chama o interior, não é senão o exterior, o ‘mundo’, grafado no meu cérebro, o que me permite ‘ser-no-mundo’, ser o Dasein de Heidegger, todo no exterior[6]. A minha interioridade – que é uma das coisas a que eu dou mais importância, os meus segredos – não é senão a minha maneira de estar retirado em relação aos outros, como sugeri (§ 63), mesmo quando penso ‘mentalmente’, como se diz, estou no ‘exterior’, ao pé daquilo em que penso (das personagens dum livro bíblico que leio, por exemplo).
77. Em suma, os neurónios foram feitos, em relação com as hormonas reguladoras da homeostasia do sangue (sistema de alimentação), para a mobilidade, o cérebro ligando os órgãos perceptivos aos músculos dos membros de locomoção. O neo-cortex das aves e dos mamíferos especializou-se nas estratégias de predação, de luta e de fuga, é isso que para eles é ‘pensar’, segundo o que aprenderam e experimentaram. A linguagem e os outros usos foram inventados socialmente para a aprendizagem : vêem-se inscrever de fora em grafos específicos do cérebro nas mesmas regiões cerebrais do pensamento mamífero. Perguntar-se-á : como compreender, nessa perspectiva, o cogito, o ‘eu penso’ ? ‘Eu’ pertence aos grafos, foi grafado com as aprendizagens, faz essencialmente parte delas, os grafos não falam nem pensam sem serem guiados por ele, digamos, e, ao mesmo tempo, este jogo auto-afecta o ‘eu’, como se diz con-sciência : ‘eu’ sei de ‘mim’, do que digo e faço quando o digo e faço, como condição de o dizer e de o fazer. O ‘eu’ é reforçado ao longo da sua vida, dos seus usos e acontecimentos. Ao contrário de tudo o que aprendemos no Ocidente, de toda a nossa filosofia e literatura, é por isso é que é tão difícil. Eu não é um outro, é um vestígio, um rasto de muitos outros. Não há maior enigma.
78. É esta concepção - filosofia com ciências – que deveria, creio, ser fecunda em neurologia. Como fazer ? Não é o fenomenólgoo que tem que o saber, mas uma das coisas seria pedir ajuda aos linguistas, por exemplo, como fazem os engenheiros de software, mas de preferência aos do laboratório de M. Gross (§ 65), infelizmente precocemente desaparecido. Disse que a área de Broca, que os neurólogos descobriram, parece ser aquela em que se fazem as associações sintácticas automáticas para falar ou pensar (§§ 27 e 65), também a de Wernicke parece ser aquela onde se ‘escolhem’ as palavras. Seja uma última vez o exemplo do software : Como é que se faz para que o computador seja capaz de ‘jogar’ ao xadrez ? Não se podem ensinar-lhe raciocínios, mas as regras do jogo, tanto aquelas que definem os deslocamentos das diversas peças como as das estratégias dos campeões. Isto é, ensina-se-lhe uma ‘linguagem’. É provavelmente o que há que procurar nos grafos : como é que as nossas línguas são grafadas[7].


[1] É hoje facilmente admitido pelos neurologistas e por numerosos filósofos, sem que muitas vezes se compreenda que em consequência se tem que mandar embora a representação mental.
[2] É a nossa glândula endócrina mais importante, segregando nomeadamente as hormonas que velam pelo equilíbro homeostático do sangue.
[3] Uma vez que, por razões de brevidade, não me ocupo aqui da psicanálise, que faz parte no entanto dos cinco domínios no texto de referência (o capítulo a ela dedicado procura esclarecer o seu especial estatuto científico), assinalo em todo o caso como é notável a diferença entre duas ou três coisinhas que ele recolhe de 2500 sonhos e a interpretação dos sonhos do livro admirável de Freud de 1900. A propósito deste, pode-se legitimamente falar em ‘ciência dos sonhos’ ou, mais rigorosamente, duma semiótica experimental do discurso neurótico na sua relação à energia sexual dos humanos. Esta semiótica exerce-se sobre o discurso do paciente quando este se entrega às suas associações livres, por vezes próximas do delírio, em volta do ‘ego’. São as resistências que esse ‘ego’ manifesta a dizer, gaguejando, auto-censurando-se, denegando, rindo ou chorando, em suma surpreendendo-se a si mesmo, que permite ao analista dar por um ‘super-ego’ relevando da lei social e que se opõe ao pulsional sexual (confissão de relações ‘imorais’ ao pai e à mãe, na interpretação dos sonhos, por exemplo) a que Freud chamou ‘id’. Ciência sui generis, que atravessa (e revela-os articulados entre si) a linguagem, o social no seu interdito do incesto e a sexualidade (biologia), isto é, os três principais domínios das ciências respeitantes aos humanos.
[4] Digamos em todo o caso que esta irreductibilidade presta honra a Platão e a Descartes, de quem este texto está bastante afastado.
[5] Portanto susceptível de mudança química nas sinapses e de as grafar.
[6] Isto foi proposto em 1927 : paarece-me que ainda não passou nos costumes, mesmo dos filósofos, mesmo de muitos especialistas de Heidegger, porque não é nada fácil de pensar. Talvez que não tenha havido nunca distância tão grande entre uma ‘verdade de pensamento’ e a nossa experiência comum, excepto talvez a do heliocentrismo, o inverso do que os nossos olhos vêem.
[7] A comparação entre cérebro e computador nos engenheiros de I. A. ganharia em ter em conta as duas diferentes maneiras dos computadores jogarem com os números (susceptíveis de linguagem binária, correspondendo à passagem ou não de corrente : pode-se calcular com ela) e com as palavras (cuja polissemia - (§§ 61-62) - não é discernível directamente, apenas pelo jogo de diferenças com as outras palavras) : não se pode senão transpor letras e sequências de letras, qualquer operação de pensamento tem que ser inscrita pelos linguistas.

As cenas científicas

As cenas científicas com double bind : da indeterminação ao enigma

79. Cada (sub) cena tem a sua população de assemblagens, cada uma destas sendo composta de unidades duplamente ligadas, em dependência de duas leis inconciliáveis que fazem todavia do conjunto uma unidade indissociável. Trata-se agora de seguir as (sub) cenas dos principais domínios (à semelhança parcial dum automóvel) – respectivamente dos graves / dos mamíferos / da fala / da habitação social (limitada, neste texto curto, às sociedades chamadas primitivas – descrevendo de forma simplificada, telegráfica, esta composição em duplo laço ou bind que é a garantia da constituição e da autonomia relativa de circulação de cada assemblagem, numa cena cuja lei geral de circulação é inconciliável com essa autonomia, sendo no entanto a ‘mesma’, a heteronomia dada, indissociável pois.
80. Eis o desenho. Qualquer (sub) cena supõe
a) que uma pletora caótica de elementos (explosão de gasolina) – respectivamente protões, neutrões e electrões / moléculas de carbono / gritos / gestos de anarquia incestuosa
b) sofra os efeitos de forças inibidoras respeitantes a alguns desses elementos que permanecem em retiro estrito (o cilindro do motor) – respectivamente as forças nucleares dos átomos / inibição do ADN no núcleo das células e disciplinação das pulsões hormonais / sistema fonológico / um interdito sexual implicado pelo paradigma dos usos -, em relação com a energia motora da autonomia da assemblagem ;
c) supõe em seguida que as outras unidades da assemblagem sejam dispostas de maneira a poderem responder à lei da cena (lei do tráfego) – respectivamente lei da gravidade / da selva (nutrição e mobilidade) / da verdade / da guerra -
d) por um sistema em retiro regulador (embraiagem e caixa de velocidades) – respectivamente campo gravítico / homeostasia do sangue e memória cerebral / língua e senso comum / paradigma da unidade social – susceptível de oscilações entre pequenas repetições e acontecimentos diante de outras assemblagens da cena,
e) os quais acontecimentos reproduzem a assemblagem[1], com retiro da doação, quer do conjunto duplamente ligado que constitui a assemblagem, quer de elementos que as alimentam e alteram, o qual retiro - o rasto dos doadores – torna possível a autonomia da assemblagem na cena. Segue-se (até ao § 85) uma rápida comparação das quatro (sub) cenas científicas.
81. Os átomos dos graves são ligados por um lado às forças nucleares e por outro às da gravidade. As primeiras tornam cada átomo impenetrável a qualquer outro átomo[2], elas são o fundamento da alteridade irredutível das coisas deste mundo ; é a verdade de todos os empirismos : nada é idêntico a nada. Foi o rasto vivo (Derrida) que ultrapassou esta irredutibilidade, criando patamares inéditos de mesmidade : das espécies biológicas / das línguas / dos usos e costumes. O que marca uma diferença importante entre estas cenas de vivos e a da Física-Química : pode-se falar, ao nível desta aonde não há rasto, de retiro doador e de autonomia com heteronomia apagada ? Apenas num certo sentido. A autonomia consiste na inércia dos graves, garantida pelas forças nucleares (retiro estrito) : resistência por um lado à desagregação (salvo pressão e temperatura muito altas), oferta por outro lado às forças de gravidade e às transformações químicas (forças electromagnéticas intra e extra-moleculares : retiro regulador quântico dos electrões de valência). A estabilidade muito improvável do sistema do sol e dos seus planetas, que os faz escapar à expansão do universo, dá-nos um bom exemplo (que não é qualquer, é fundador da física) : o retiro doador seria o do próprio campo das forças de gravidade de cada um dos astros, que só existe devido aos (outros) astros que o compõem e sem o qual eles derivariam para os espaços segundo a sua inércia (autónoma). O que significa que cada astro é dado[3] pelos outros astros, no sistema deles, cada um é duplamente ligado : pela sua força de gravidade que reúne todos os seus componentes (é isso ‘um’ astro) e pela do sistema (o conjunto de todos) que o liga, o retém, o prende na estabilidade da sua órbita elíptica.
82. Saltemos para a cena da Biologia dos mamíferos, por cima da dos unicelulares e das principais etapas da evolução. Trata-se, como se viu, dum duplo sistema, nutricional e neuronal, visando a reprodução do indivíduo, e dum terceiro, o sexual, suplementar, visando a reprodução da espécie. Os doubles binds multiplicam-se : 1) primeiro o de cada célula com a sua dupla membrana[4], que precisou de três biliões de anos de evolução, contra 600 milhões para a de todos os organismos ; 2) em seguida, fundamental, o laço de cada célula nela mesma e o laço ao sistema de circulação do sangue que a alimenta ; 3) o deste sistema nutricional, com as suas hormonas assegurando a homeostasia, e os grafos neuronais da mobilidade, 4) por sua vez desdobrado, nas espécies mais complexas entre dois cortex, o ‘paleo’ e o ‘neo’. Se pensarmos que qualquer mamífero é, em teoria, ameaçado duma espécie de caos interno (os laços desligando-se, todos os tecidos tornando-se cancros), percebe-se que será necessário, além da inibição celular do ADN no seu núcleo (reserva da produção de proteínas), um suplemento de inibição visando os genes especializados das células dos outros tecidos (que são cobertos) e os do desenvolvimento embrionário que asseguram a boa dimensão dos órgãos. Isto é, um suplemento de inibição que guarda as células em retiro estrito especializado para a reprodução sã do conjunto. No que respeita ao double bind do nutricional e do neuronal, a questão que se põe é a da relação entre as hormonas, por exemplo as da fome, e os grafos da aprendizagem : basta pensar na situação dum gato louco de fome diante dum predador que ele quereria comer, se pudesse, para compreender que ele tem que reter retiradas as suas hormonas da fome durante o tempo da sua fuga e de encontrar segurança e à vontade para voltar à caça ; quer dizer que os grafos do neo cortex, pulsionados pelas hormonas, aprendem a discipliná-los para a eficácia das estratégias da espécie, ficam em retiro regulador (memória) diante da situação ecológica (lei da selva), enquanto que elas estão em retiro estrito, podendo ir até à loucura se não houver saída para as suas pulsões nutricionais (ou sexuais). A sexualidade, por seu lado, está do lado do retiro doador dos progenitores, em quem ela tem um papel que pode fazer-se à custa da sua auto reprodução (é por isso que é necessário que a cópula seja gratificante) : nomeadamente a fêmea deve dar por sua vez, numa espécie de ética biológica, deve tornar-se doadora do que lhe foi dado outrora e retirar-se, segundo os ritmos da gravidez e do aleitamento, não deixando senão o seu rasto, o programa genético da espécie com as suas marcas singularizantes e a aprendizagem das crias.
83. Na cena das Linguísticas[5], basta agora sublinhar que o sistema fonológico em retiro estrito para a formação das palavras é o que torna as línguas estrangeiras umas às outras, as sintaxes-semânticas da língua (retiro regulador) mais ou menos próximas tornando possível traduzir[6], tanto quanto as fonologias e as singularidades dos usos, e portanto dos códigos textuais, o permitem. Na cena da verdade que qualquer língua instaura, é esta e o senso comum cultural que, em retiro regulador[7], asseguram o entendimento corrente entre os falantes. A contribuição de Flahault (§ 63) permite compreender o que está em questão : a verdade do que é dito, desde o processo da aprendizagem (que no sentido do ‘saber’, nunca está terminado), nunca está garantida àquele que escuta, sem que muitas vezes ele tenha maneira de ter garantia, como atesta a panóplia dos verbos a respeito da dúvida e da certeza. É por essa razão que é a verdade que está em jogo nesta (sub) cena instaurada pela linguagem : tanto diz respeito ao entendimento com os outros como à relação ao que é dito ; mas a autonomia da palavra de cada um torna possível o erro, a mentira, a ficção, o que sublinha como esta autonomia, indissociável da lei do senso comum, é inconciliável com ela. Dá-se por isso quando há proposta de novidades e choque com as ortodoxias. Ou quando a autonomia se exaspera e se torna delírio de louco. A poesia é o discurso que joga a fundo com este double bind, da maneira enigmática que fez os românticos falar de ‘inspiração’, joga sobre a dupla articulação da linguagem, sobre a lei do significante (jogo sonoro entre as palavras, ritmo) e sobre a do sentido das frases. A lógica, no extremo oposto, desconfiou tanto dela, da polissemia, das chamadas ambiguidades das línguas, que acabou por inventar uma escrita de tipo matemático com uma única articulação : exacta, pois, mas fora das línguas. Por outro lado, está-se ligado, pela língua comum, a todos os outros (salvo emigração, bem entendido). Também aqui a importância crucial da aprendizagem e portanto do papel social dos ‘mestres’ (em retiro doador) implica uma ética elementar de dar aos jovens (e em geral a quem ignora e pergunta) o que se recebeu de outrem.
84. Façamos uma pausa para sublinhar de novo a impossibilidade de estender às cenas terrestres o determinismo que os cientistas herdaram dos filósofos e dos teólogos. O que foi sugerido da inércia como uma espécie de grau zero da autonomia, mostra que os graves, enquanto abandonados à cena da gravidade e das transformações químicas, são indeterminados quanto àquilo que lhes pode suceder. Devido aos aleatórios da cena (mesmo as rochas face à erosão, para não falar das tempestades, dos terramotos). De forma geral, eles não são susceptíveis de previsão científica, que é apenas laboratorial. Os graus de autonomia dos vivos – mecanismos regrados para o aleatório das cenas – na escala das espécies aumenta esta indeterminação, a complexidade dos respectivos cérebros parecendo ser um bom índice de medida : o neo cortex das aves e dos mamíferos coloca-os no alto da escala das performances etológicas. Sem dúvida que há um salto forte quando se passa aos humanos com a invenção da fala, dos usos técnicos e dos usos religiosos dando um papel de relevo aos antepassados mortos. A indeterminação torna-se mais forte, as tradições tendo reservado o termo liberdade para a dizer. Essas tradições « opuseram » assim os humanos e os animais : é aonde reside o dualismo que já recusámos atrás. A questão não consiste em voltar atrás e em negar a liberdade humana, mas em não « opor » todos os humanos e todos os animais. Sejam exemplos simples. Um humano está muito mais próximo dum leão ou duma andorinha do que estes estão duma formiga, o que estes animais têm a mais do que a formiga é condição necessária (embora não suficiente) dos humanos. Ou então, à maneira de Deleuze : do lado dos afectos, um cavalo de guerra está mais próximo dum touro do que dum cavalo de carroça que, por sua vez, está mais próximo dum burro que puxa a nora. Não há que comparar apenas ‘essências’, além das espécies zoológicas as diferenças entre vivos são imensas. O que também vale das diferentes complexidades das sociedades humanas. O que no Ocidente chamamos ‘liberdade’, que reclamamos desde o Iluminismo, era inacessível aos indígenas das sociedades tribais, que tinham uma outra, comunitária, ou aos da (Modernidade chamada) Antiguidade. Da mesma maneira, a escola moderna cria muitas diferenças culturais que tornam bem mais livres do que outros (sem ter que ver com a riqueza em dinheiro) aqueles que acabaram os seus estudos. Na escala da evolução biológica e histórica, há inegavelmente crescimento da indeterminação e da liberdade. Todavia, a diferença que a fala e os usos e costumes introduziram como liberdade, permite que se possa falar desta em termos de enigma, na medida em que a convergência das diversas indeterminações, dos diferentes doubles binds, os dos mamíferos, da linguagem e dos outros usos e costumes, a multiplica muito, torna muito enigmático qualquer outro que esteja diante de mim, quaisquer que sejam as nossas diferenças culturais. Ele é estruturalmente inédito, o seu rosto[8] releva do enigma que ele é ontologicamente, rasto de muitas doações, a sua voz tem que ser sempre escutada, posso sempre aprender com ele, já que ele sabe sempre coisas demais que eu não sei. Por exemplo, qualquer indígena africano pode-se desenrascar em lugares sem electricidade infinitamente melhor do que eu. As catástrofes ecológicas que parecem anunciar-se serão muito mais prejudiciais aos civilizados electro-dependentes do que aos outros. Esteve outrora em jogo algo de semelhante entre Romanos e Bárbaros, os nossos antepassados europeus. Se a história se repetir desta vez (não será para amanhã), seria à custa dos descendentes dos ‘vencedores’ de então (e herdeiros dos ‘vencidos’).
85. Seja enfim a (sub) cena da Antropologia. O seu caos é a multidão, como se vê, hélas ! sempre que há turbas de refugiados, escapados de zonas de guerra, ou então nos subúrbios-cancros de algumas metrópoles do chamado Terceiro Mundo. Para evitar esse caos, as sociedades organizam-se em unidades locais privadas, em retiro estrito da multidão, quer acolhendo os que nelas nascem ou se casam, quer, nas instituições modernas, atraindo os seus agentes pelos seus paradigmas e salários : em todos os casos, são os paradigmas (em retiro regulador) que regulam os usos de forma a assegurar a alimentação de cada um pelos usos herdados. Estas unidades sociais são ligadas entre elas por laços globais, que o sistema de parentesco e a respectiva troca de mulheres garante, através de regras políticas e religiosas (também em retiro regulador, ligando-se aos paradigmas locais : ausentes habitualmente, têm efeitos quando tem que ser) herdadas dos antepassados (em retido doador). O jogo mútuo das ‘envies’ que opõem entre si as diferentes unidades locais e a solidariedade em caso de guerra ou outro relevam de duas leis inconciliáveis e indissociáveis, do double bind que é uma sociedade. Assim como ela integra os doubles binds das (sub) cenas biológica e da fala, serão criados outros duplos laços à medida da maior complexidade histórica, nomeadamente o regime monárquico, e depois republicano da instância política, personalizada na casa dum guerreiro ou em colectivos democráticos (ou não), o mercado e a moeda, a escola, a igreja, a máquina, as instituições modernas e as famílias ‘apartadas’, os médias, tratando-se em todos os casos de estruturas ou mecanismos em double bind.
86. Uma palavra para retomar as duas alusões à questão ética (§§ 80 e 81). O retiro doador é parte estrutural quer das espécies biológicas quer das sociedades humanas : que haja que se deixar desapropriar das regras permanentes da auto-reprodução para dar autonomia a outros, apagando-se, assim como se a recebeu dos seus antepassados. Esta autonomia contempla antes de mais a nutrição como imperativo social-biológico : nenhuma sociedade pode abandonar à fome nenhum dos seus, trata-se dum imperativo social prévio a qualquer ordenação jurídica. Em seguida, as sociedades heterárcicas, que excluíram qualquer possibilidade de sobrevivência autárcica, devem, pelo mesmo tipo de imperativos, agora de ordem social elementar, também prévios ao jurídico, dar a cada um capacidades de uso adequadas, através de escolaridade, e integração numa instituição (emprego), ou um salário de desemprego em caso de crise. Esta ética estrutural, ontológica, pode também reclamar-se dos profetas da bíblia hebraica e dos apóstolos da bíblia cristã : a lição de ética deles (« que não haja pobres no meio de ti », « ama o teu vizinho, o teu próximo, como a ti mesmo ») releva justamente do imperativo de dar do que, nosso, foi também dom (aqui ancestral, neles divino). E apagar-se, retirar-se, para que a autonomia seja[9]. Enfim, além de que « as ‘envies’ não se devem cumprir senão segundo os usos » (§ 42), há uma ética elementar dos ofícios em sociedade heterárcica : já que nós recebemos de outrem a quase totalidade das coisas de que temos necessidade para a nossa habitação e temos que ter uma enorme confiança (Fidalgo) nesses anónimos que ‘trocam’ essas coisas com as nossas, também temos que fazer da melhor maneira que soubermos e pudermos o que fazemos e que irá para outros anónimos.


[1] Sem analogia na máquina.
[2] Nas condições de temperatura do nosso universo terrestre, o que se poderia chamar a ‘homeostasia’ do sistema planetário.
[3] Heteronomia doadora apagada : que surpreendeu tanto Newton ! Há sempre coisas para nos espantar, se formos capazes de ultrapassar os nossos hábitos escolares. Primeiro o sistema planetário, em seguida todo o terrestre está cheio de aleatório. Assustador para a boa lógica clássica, para o velho determinismo cientista.
[4] O contributo de Marcello Barbieri permite ultrapassar o ‘dogma’ (Crick) do determinismo pelo ADN : com efeito não se pode comprrender a célula a partir do ADN e da sua determinação, mas, ao contrário, o ADN só é compreensível como uma parte da célula.
[5] A gramática gerativa não parece ser susceptível deste tipo de análise.
[6] Excepto para o chinês e para as suaas palavras monosilábicas, parece. Em todos os outros casos, é no fundo a gramática de raiz aristotélica que foi adaptada às traduções e à elaboração das gramáticas de cada língua desconhecida.
[7] A língua nunca está inteiramente numa fala, num texto. O que os linguistas chamam paradigma, joga-se ‘in absentia’ (Saussure), retiradamente. Por exemplo, se eu digo uma frase com a palavra ‘pequeno’, é preciso saber que ela faz paradigma com ‘grande’, médio’, ‘dimensão’, ‘pequena’, palavras que não estão na frase mas que são essenciais para o seu sentido.
[8] Motivo que Levinas colocou em grande relevo filosófico, de maneira diferente desta ontologia inspirada em Heidegger e em Derrida.
[9] Ao contrário da « substituição » e do « refém » de Levinas, parece-me. As citações bíblicas são respectivamente do Deuteronómio 15,4, do Levítico 19,18, do evangelho de Marcos 12,31 e paralelos.