terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

As descobertas científicas mais importantes

As descobertas científicas mais importantes

32. É agora mais fácil dizer quais são, do ponto de vista fenomenológico proposto aqui, as principais descobertas científicas do século XX, que revolucionaram os respectivos domínios. Estes são os campos dos ‘fenómenos’ (duma palavra grega que diz o que se manifesta, o que aparece). Campos e fenómenos estavam já mais ou menos bem delimitados, entregues havia muito tempo à azáfama científica. A novidade – independentemente uns dos outros, excepto no que diz respeito a Lévi-Strauss – consistiu na descoberta do que se poderia chamar não-fenómenos : retirados, retraídos da fenomenalidade e tornando-a possível. Primeiro, o núcleo dos átomos, cujos protões e neutrões são retirados do campo de gravitação e do das transformações químicas (de que a física e a química respectivamente se ocupam), os quais núcleos tornam possíveis quer as moléculas quer os graves. Em seguida, o ADN retirado no núcleo da célula, de que se acabou de falar, relacionado com o sangue que vem alimentar cada célula. Em seguida, também já falámos dos fonemas (ou letras) da linguagem, tornando possíveis as palavras e as frases inesgotáveis das nossas conversas e textos, justamente porque retirados do campo da significação. Viremos mais à frente a contrastá-los com os seus parentes próximos, a escrita matemática, a música e as imagens. Depois a psicanálise, de que teremos que renunciar aqui a justificar a sua cientificidade retorcida, atravessada, diagnosticou imediatamente o domínio retraído, o recalcamento das pulsões sexuais e agressivas em relação ao parentesco próximo, como condição das ‘relações psicológicas’ com outrem, oscilando entre o amor e a rivalidade. Enfim, a descoberta por Lévi-Strauss da correlação entre o interdito do incesto – o retiro das relações sexuais de consanguinidade, universal de todas as sociedades humanas – e a estruturação exogâmica da sociedade segundo o seu sistema de parentesco, cuja lógica não consciente decifrou ; sem ser, nem de perto nem de longe, a primeira pedra da cientificidade no domínio das sociedades[1], ela parece-me ser a decisiva, aclarando de maneira luminosa o núcleo social que tece qualquer sociedade humana, quaisquer que sejam as complicações posteriores, devidas às invenções técnicas e às escritas[2].
33. Foi este o esquema primitivo desta fenomenologia, tal como o compreendi nos meados dos anos 80, em que o motivo decisivo era o double bind que Derrida tinha ido buscar a G. Bateson : um ‘duplo laço’ que ainda não conhecia a existência de duas leis indissociáveis e inconciliáveis, nem sequer o de retiro (mas já incluía o automóvel). Com efeito, este não é senão uma das três formas de retiro que vim a diagnosticar mais tarde, que chamei retiro estrito, aquele que retira algo que fazia parte da cena precedente caótica. Tornado mais complexo, ver-se-á depois, com a descoberta de dois outros tipos de retiro correlativos do primeiro[3], este esquema veio a estender-se, com a experimentação da escrita, a estados intermediários, quer da evolução biológica, quer da história dos humanos.
34. Quanto ao obstáculo epistemológico que me parece impedir os cientistas de abraçar melhor o conjunto do seu domínio e de os articular aos dos vizinhos, pode-se dizer que ele tem o mesmo perfil no que diz respeito às ciências dos seres vivos, das suas línguas, sociedades e ‘psiquismos’. Trata-se da separação dualista, ainda que atenuada, da oposição entre sujeito e objecto, que os biólogos transpõem aos animais. Digamos que é importante aqui o passo de Heidegger em ruptura com Husserl, propondo em 1927 que os humanos são ‘seres-no-mundo’, estão no exterior deles mesmos ; mas há que levar mais longe esta proposta espantosa, há que dizer que eles recebem-se do exterior, que, tal como os mamíferos, eles são estruturados a partir da cena e para poderem circular na cena, tornearem os obstáculos e sobreviverem. Quer dizer que a diferença entre mim e o mundo que me é exterior não é originária, mas construída, duma maneira que a psicanálise permite abordar, na medida em que ela conta como o ‘eu’ é desligado do dual imaginário com a mãe pelo recalcamento, vindo a opor-se ao outro que lhe dita a lei, a aprender e a cultivar a sua ‘interioridade’[4]. Voltaremos sobre este obstáculo nas ciências das sociedades, em linguística e na neurologia.
35. No que diz respeito à física, a questão é mais delicada, maior o risco do aprendiz de fenomenologia se enganar. O que me incomoda no discurso físico, é a expressão ‘mundo quântico’ ou ‘mundo das partículas’, a maneira como se fala desse ‘mundo’ como se se tratasse do que chamamos ‘a matéria’[5]. Porque me dá a ideia de que se trata sempre de coisas fabricadas em laboratório e nos grandes aceleradores, com existência muito fugitiva, portanto incapazes da estabilidade que nós atribuímos aos termos ‘mundo’ e ‘matéria’. O que a teoria do átomo e da molécula nos ensina, é que eles só se aguentam por forças atractivas que atraem : quer os protões e os neutrões, no caso dos núcleos e das suas forças nucleares propriamente ditas ; quer dos protões e dos electrões no caso dos átomos, primeiro, e em seguida das moléculas e dos graves macroscópicos, a cargo das diferentes forças electromagnéticas enquanto atractivas ; quer enfim dos graves nos astros, no nosso sistema planetário, a cargo das forças da gravidade. São essas forças atractivas, muito enigmáticas, que dão estabilidade ao nosso mundo e ao que chamamos matéria (sólida, líquida e gasosa, nos casos tradicionais). Já Newton não conseguia figurar-se essa atracção, no caso à distância (« hypothesim non fingo », escreveu ele, não ficciono nenhuma hipótese, não a consigo imaginar), creio que a sua multiplicação por três não contribuiu para dissipar o enigma que permanece total. Pode ser que aqui o obstáculo epistemológico seja a separação[6] entre força e energia : esta sendo por essência dissipativa, explosiva, não serão as forças atractivas que a retêm (em retiros : estes são todos de ordem entrópica, à maneira de Prigogine) de forma a que possa haver a estabilidade do mundo e da matéria ? Se o percurso dos átomos para as partículas é a explosão nuclear, como conceber o percurso inverso, das partículas livres aos átomos ? Nomeadamente como é que é ultrapassada a barreira das forças nucleares ? A explosão dita Big Bang, não seria já ela uma desligação, forças atractivas que rebentaram, à maneira das explosões que nós conhecemos ? Seja como for, o motivo físico das forças atractivas e constitutivas (dos átomos, moléculas, graves e astros) ser-nos-á útil noutros domínios.


[1] O contributo de Hegel e sobretudo de Marx, na época deles, ficou confinado às sociedades modernas industriais.
[2] O livro O Processo civilizacional de Norbert Elias esclareceria o prolongamento deste núcleo, nas sociedades modernas, às unidades sociais onde mulheres e homens não ligados pelo interdito do incesto estão lado a lado várias horas por dia.
[3] Um retiro regulador (da homeostasia do sangue, por exemplo, segundo os acasos da cena da selva) e um retiro doador (dos progentopres, dos mestres).
[4] Todos temos experiência de que esta nos não é dada de bandeja, que pede um longo trabalho intelectual e espiritual.
[5] Felizmente que também falam de ‘anti-matéria’, o que parece sublinhar que, tratando-se do mesmo ‘mundo’, não é nem o nosso ‘mundo’ nem a nossa ‘matéria’.
[6] É certo que aqui não se trata da separação sujeito / objecto, mas qualquer ‘separação’ exclusiva é suspeita a olhos derridianos.

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